sexta-feira, 1 de abril de 2011

Persistência e barras de coco e maracujá

Eu tenho um histórico de desistência em alguns pontos da minha vida. Normalmente relacionados àquela intuição de que você vai se dar mal ou fazer papel de idiota se continuar pelo caminho escolhido. Como foi o caso de um curso de dança cuja coreografia era vergonhosamente ruim, e resolvi saltar do barco antes de afundar com todas as outras alunas no dia da apresentação. Vendo a apresentação, depois, fiquei aliviada com minha decisão.

Em outras áreas da minha vida, no entanto, [preparem-se para o cliché de filmes de ação] "desistir não é uma opção". Quando sei que posso fazer melhor, não consigo me conformar com a mediocridade. Sempre exigi muito de mim mesma; não é nem uma questão de perfeccionismo, mas de conhecer meu potencial e saber que ainda não cheguei ao ponto de que sou realmente capaz.

Detesto me dar conta de que não sei alguma coisa dentro de um tema que me interessa. Se eu gosto de fazer pães, corro atrás de toda a informação disponível para me ajudar a fazer pães melhores, porque sei que sou capaz de fazê-los, e, uma vez encontrada e absorvida toda essa informação, decido até onde estou disposta a ir. Mas não paro no meio do caminho. Se não conheço uma palavra, corro atrás do dicionário. Se não acerto uma ilustração de primeira, faço outras. Não me conformo com o erro: procuro identificar suas causas e corrigi-las na próxima tentativa, se possível. Na minha profissão, nos meus hobbies, e em tantas outras áreas de minha vida.

Talvez por isso me irrite tanto com gente João-Sem-Braço, com complexo de Horácio, incapaz de buscar suas próprias soluções, de gastar tempo pesquisando, ou mesmo manter-se quieta com seus pensamentos por cinco minutos, raciocinando sozinha. Gente que quer tudo mastigado, o tempo todo.

Fiquei pensando sobre isso ontem, quando decidi preparar essas barras de coco e maracujá como sobremesa do almoço que estava cozinhando para minha cunhada, recém-chegada da Itália. Preparei a base de massa como descrita na receita, mas notei que a textura não era de "massa grudenta", como indicada, e sim um creme. Como ainda tinha pouca familiaridade com as sobremesas daquele livro, resolvi ir contra meus instintos e prosseguir, espalhando o creme na forma com uma espátula e levando ao forno. Resultado: meleca. O creme borbulhou, cozinhou, e não ficou nada parecido com o que deveria ficar. Na pressa, decidida a não desistir da minha sobremesa, fiz uma pâte-brisée básica, mas justamente pela pressa e pela irritação dos primeiros ingredientes perdidos, fiz o serviço de qualquer jeito, e apesar de saborosa, a massa encolheu na forma, revelando imensos buracos, incapazes de segurar o creme que viria por cima. Lixo, novamente.

Nesse momento, respirei fundo. Não queria desistir daquela sobremesa daquela forma. Já não havia mais manteiga na geladeira ou tempo para prepará-la, então resolvi parar, respirar, almoçar, e atacar o problema mais tarde.

Saí, comprei mais manteiga e olhei novamente para a receita. Aquela base de massa, com fermento, não era como um bolo, como havia ficado, nem como uma pâte-brisée, como havia tentado substituí-la. Era como um biscoito. Comecei novamente. Bate a manteiga e o açúcar, mistura o ovo e a baunilha, acrescenta a farinha e o fermento. Creme. De novo. Não fora a técnica, então. Era a proporção de ingredientes. Talvez aquela mísera meia xícara de farinha fosse um erro de digitação. Aquela não era uma textura apropriada para uma base de biscoito. Comecei a acrescentar mais farinha, 1/4 de xícara por vez. Então ela começou a tomar corpo, e finalmente atingiu a consistência de "massa grudenta", uma que você fosse capaz de espalhar na forma com mãos enfarinhadas, como a receita pedia.

Prossegui. Coloquei a massa no forno. E não abri meu leite de coco ou meu maracujá até ter certeza de que a massa assara perfeitamente. Eureka. Preparei a cobertura cremosa rapidamente, despejei sobre a base firme de biscoito e terminei as barrinhas com sucesso total. Elas ficaram perfeitas e deliciosas, crocantes por baixo e cremosas por cima, com uma textura entre um pudim e um cheesecake, com as laterais e o topo mais firmes e caramelizadas.

E pensei sobre a persistência, sobre todos os bolos e biscoitos e cheesecakes que estraguei na vida, e os que deram certo, e todos os livros e websites que li a respeito, todas as técnicas que aprendi ao longo do processo e a confiança que adquiri para tentar corrigir meus próprios erros e arriscar meus ingredientes em novas tentativas. Como essa busca funciona da mesma forma em qualquer tema, como aprender vários idiomas: o próximo idioma será sempre mais fácil, pois você já tem uma base de comparação com os anteriores, e sua mente vai criando automaticamente as conexões entre as palavras das diferentes línguas, até um ponto em que você raramente precise de um dicionário.

E isso dá um prazer imenso. O acertar depois de muitas tentativas fracassadas, sentir a evolução, sentir-se confiante no que você faz e no que você sabe. E por isso não me conformo com quem se conforma em não saber. Com quem percebe uma carência de informação e não corre atrás. Com quem não quer aprender. Com quem não tenta se aprimorar. No trabalho, na vida pessoal, em seus hobbies, o que for.

Para quem não se conforma também, barrinhas de coco e maracujá, com a quantidade de farinha corrigida. Mas vá acrescentando aos poucos, como eu fiz, porque medidas em volume são sempre pouco confiáveis, e você pode conseguir essa textura com menos (ou mais) farinha.

BARRAS DE COCO E MARACUJÁ
(ligeiramente adaptado do livro Bill's Sidney Food, de Bill Granger)
Tempo de preparo: 1h-1h30
Rendimento: cerca de 20 barrinhas

Ingredientes:
(base)
  • 125g manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 1 xic. açúcar cristal orgânico
  • 1 ovo grande, orgânico
  • 1 colh. (chá) extrato natural de baunilha
  • 1 1/2 xic. farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1 pitada de sal
(recheio)
  • 4 ovos grandes, orgânicos
  • 1 xic. açúcar cristal orgânico
  • 1 xic. coco em flocos não adoçado
  • 1/3 xic. farinha de trigo
  • 1 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 160ml leite de coco
  • suco e casca ralada de 1 limão (tahiti ou siciliano; usei tahiti)
  • 1/2 xic. polpa fresca de maracujá (cerca de 2 grandes)

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Unte uma assadeira de alumínio de 20x30cm com manteiga e forre o fundo e as laterais com papel-manteiga. 
  2. Na batedeira, ou com uma colher de pau, bata a manteiga e o açúcar até que fique clara e cremosa. Junte o ovo e a baunilha e bata até ficar homogêneo. Junte o fermento e a farinha, aos poucos, até conseguir uma textura de massa de biscoito grudenta, mas suficientemente firme para que você consiga espalhar na forma de modo uniforme, amassando com as mãos enfarinhadas. Se estiver grudando nos dedos, mesmo enfarinhados, ainda não deu o ponto. 
  3. Leve ao forno por 15 minutos, ou até a superfície pareça seca. Retire do forno e prepare o creme.
  4. Na tigela da batedeira, ou com um fouet, bata os ovos e o açúcar até que fiquem claros. Junte o restante dos ingredientes, misturando bem. Despeje sobre a massa de biscoito e volte ao forno por 35-40 minutos, ou até que esteja dourado. 
  5. Retire do forno e deixe esfriar na forma completamente. As barrinhas são suficientemente firmes para serem desenformadas como um bolo, virando de cabeça para baixo numa grade, retirando o papel-manteiga e invertendo novamente numa tábua, para serem cortadas. Não há indicação de como guardá-las na receita original, mas, como uma torta, eu as mantenho na geladeira, em um pote bem fechado.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Biscotti de chocolate para uma espera interminável

Senta e espera.

Primeiro o médico (e a família, e os amigos, e estranhos na rua) fazem terrorismo dizendo que o menino vem antes; depois pára tudo, que ainda tem mais um tempinho. Ninguém sabe nada. Profissional ou palpiteiro, o chutômetro corre solto.

Enquanto isso, senta e espera.

Tendo encerrado o trabalho há uma semana, tenho tido tempo para reavaliar minha rotina e restabelecê-la, depois dos meses de mudança de apartamento, excesso de trabalho, calorão e barrigão terem deixado minha vida de pernas pro ar. Bem, não de pernas pro ar, ou meus pés não teriam inchado. :P

Sou uma criatura de hábitos; e como boa filha de engenheiro, metódica e adoradora de listas. Então pode-se imaginar minha aflição ao me perder em minha antes tão bem estabelecida rotina doméstica. Eu tinha um dia de fazer feira, de fazer caldo, de fazer pão, de fazer geleia, de fazer sorvete, de fazer faxina, de levar o reciclável. E me vi comprando verduras em bandejinhas no supermercado, comprando pão, comprando geleia, comprando sorvete, deixando a faxina para o dia seguinte e o reciclável se acumulando por duas semanas em sacos imensos (por conta das embalagens das verduras, do pão, da geleia e do sorvete, antes inexistentes).


Nein, nein. Não é assim que gosto de fazer as coisas.

Comecei a entrar em pânico acreditando que meu pequeno guerreiro ítalo-germânico chegaria adiantado e bagunçaria ainda mais o meu coreto, e tive coceira de imaginar que nunca mais conseguiria me organizar.

Então essa semana foi tranquila, e pela primeira vez em anos eu não tinha mais nada para fazer a não ser ver filmes, desenhar e cozinhar, e pude, enfim, relaxando e sentindo meu cérebro voltando para seu tamanho normal, organizar minha vida.

Fui à feira, fiz caldo, estou fazendo pão, as ameixas estão macerando em açúcar para fazer geleia amanhã, e montei uma agenda com dias certos para cada coisa, uma vez que, chegado o pequeno matador de dragões, não me imagino ter nunca mais tempo para mais de uma atividade dessas por dia. E é assim que funciono. Se eu não souber que aquele é o dia de fazer pão (antes aos sábados), eu posso deixar passar e ficar sem pão em casa. Eu prospero com disciplina e rotina. Como tudo na vida.

Outro momento de ouro foi a organização da despensa. Ter jogado fora na mudança dois pacotes de farinhas diversas vencidas me fez pensar. Não adianta quanta coisa diferente eu compre: se for para ter farinhas diferentes das de trigo, que sejam centeio e sarraceno, que eu uso com frequência. O restante, a não ser que comprado em porções minúsculas e já tendo receitas planejadas, inevitavelmente irá para o lixo. Olhar com honestidade para minha despensa e acalmar minha curiosidade culinária, que me faz comprar mais ingredientes do que consigo de fato usar, fez com que eu conseguisse montar uma lista de compras mais enxuta, que promete diminuir meus gastos com supermercado [que, para minha surpresa imensa, estão abaixo da média de São Paulo, segundo uma reportagem no jornal sobre o alto custo de vida por aqui] e tornar minha despensa mais dinâmica e funcional, com mais rotatividade de produtos e menos itens de fundo de armário.

Foram cinco anos mudando, reavaliando, planejando, adaptando, evoluindo, até chegar numa rotina que me parecesse correta e confortável. É estranhíssimo sentir-me perdida novamente, como se não tivesse passado por todo esse processo antes. Mas, de certa forma, reconfortante poder reavaliar tudo mais uma vez e começar do zero. De novo.

Enquanto o mini-metaleiro não dá o ar da graça, tento entranhar na minha cozinha e na minha cabeça os novos-velhos hábitos. E crio novas neuras. Como esses biscotti de chocolate, que preparei especificamente com intenção de levar à maternidade, para comer depois do parto, uma vez que não anseio nem um pouco por comida de hospital, e sei que se tiver de passar um dia inteiro que seja por lá, vou querer comer algo que seja meu.

Esses biscotti, como todos os biscotti, são fáceis, crocantes, e duram semanas a fio num pote fechado. Perfeitos para quando você não sabe quando precisará deles. ;) Como tudo feito pela Alice Medrich, não são excessivamente doces. São suaves, perfeitos para acompanhar um bom espresso, mas também matam aquele desejo súbito por chocolate.

Senta e espera. E come um biscotto.

BISCOTTI DE CHOCOLATE
(do livro Chewy, Gooey, Crispy, Crunchy, de Alice Medrich)
Tempo de preparo: 1h30
Rendimento: por volta de 24 biscotti, dependendo do tamanho

Ingredientes:
  • 2 xic. farinha de trigo orgânica branca (ela pede por farinha não-alvejada)
  • 1/2 xic. cacau em pó, natural (pálido) ou alcalinizado (marrom-escuro)
  • 2 colh. (chá) café em pó (opcional)
  • 1/2 colh. (chá) bicarbonato de sódio, se usando cacau natural, ou 2 colh. (chá) fermento químico em pó, se usando cacau alcalinizado (usei cacau Callebaut e fermento químico)
  • 1/2 colh. (chá) sal
  • 8 colh. (sopa) manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 1 xic. açúcar cristal orgânico
  • 2 ovos grandes, orgânicos
  • 2 colh. (chá) extrato natural de baunilha
  • 1 xic. nozes, picadas grosseiramente

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 150ºC e posicione a grade no meio do forno. Forre uma assadeira rasa e grande com papel-manteiga, papel-alumínio ou unte com óleo (usei meu silpat). 
  2. Numa tigela pequena, combine a farinha, o cacau, o café em pó (se estiver usando), sal, bicarbonato OU fermento químico, e misture bem com um fouet ou um garfo. 
  3. Em uma tigela grande, usando uma colher de pau, bata a manteiga e o açúcar apenas até que fique cremoso e uniforme. Junte os ovos e a baunilha e misture. Troque para uma espátula e incorpore a mistura de farinha, mexendo apenas até que não se vejam ingredientes secos. Junte as nozes. 
  4. Com a ajuda da espátula, espalhe a massa na assadeira, formando um retângulo achatado de cerca de 40x10cm (ou do tamanho que preferir seus biscotti, lembrando que a massa crescerá no forno; o tempo de forno não será afetado).
  5. Leve ao forno por 30-35 minutos, ou até que a massa esteja firme mas elástica ao toque (como a superfície de um bolo), girando a assadeira 180ºC dentro do forno no meio do cozimento, para garantir que asse por igual. 
  6. Retire do forno e deixe a assadeira sobre uma grade por no mínimo 15 minutos. Deixe o forno ligado. 
  7. Transfira cuidadosamente a massa para uma tábua de corte e, usando uma faca serrilhada, fatie os biscotti com uma espessura de mais ou menos 1cm. Os biscotti ainda terão consistência de bolo, então transfira com cuidado de volta para a assadeira (sem nada forrando), deixando um espaço entre eles de 1cm pelo menos.
  8. Leve de volta ao forno por 30-35 minutos (ou ajuste o tempo de acordo com o tamanho final dos biscotti), até que sua superfície esteja seca e crocante. Retire do forno e transfira os biscotti para uma grade e deixe que esfriem completamente antes de guardá-los em um pote hermético. Duram várias semanas.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pudim de leite: permissão para ser mãe

Quem vem por essas bandas há muito tempo sabe do meu problema com pudim de leite. Essa sobremesa tão simples, que toda mãe, avó e tia sabe fazer, que todo restaurante por quilo tem na ponta do balcão junto com a salada de frutas e a torta holandesa, e que eu simplesmente não conseguia acertar. Nunca.

Meu primeiro problema: não gosto de pudim de leite feito com leite condensado. Doce demais para mim. Meu negócio é ovo, leite, creme, baunilha e açúcar. Mesmo assim, a maior parte das receitas que eu testara era excessivamente doce.

Segundo problema: todas as receitas mandavam assar em banho-maria, por, sei lá, 40 minutos, e meus pudins ficavam mais de duas horas no forno e nada de firmarem. Mudei a forma, mudei a temperatura do forno, fiz o diabo, e nunca dava certo. Eles assavam de forma irregular, ficavam com gosto de ovo, e quando os desenformava, eles quebravam em mil pedacinhos mal cozidos.

Terceiro problema: eu teimava em fazer o caramelo numa frigideira antiaderente, de fundo preto, e nunca conseguia ver a cor exata do bendito. Colocava na forma e estava sempre claro demais, caldinha rala de açúcar, e essa calda endurecia assim que encostava na forma e eu não conseguia espalhá-la direito. :P

Quando o marido fez cara de pidão, reclamando que havia tempos eu não preparava nenhum pudinzinho ou sobremesa de colher, resolvi que era a hora de tirar a teima de uma vez por todas. Afinal, com o bebê já praticamente com um pé pra fora, eu não poderia ser mãe sem saber fazer um pudim de leite decente.

Apanhei uma receita de Dorie Greenspan, que alguém já me havia recomendado certa vez, e arregacei as mangas. Primeiro ponto positivo: o truque de deixar a forma no forno enquanto o caramelo é preparado. O caramelo bate na forma quentinha e escorre sem problemas, sem endurecer. Também larguei mão de ser besta e fiz o caramelo numa panela decente, de modo que ficasse exatamente no ponto que eu queria.

Coloquei a forma em banho-maria no forno na temperatura indicada e acertei o timer já com um suspiro conformado. Imaginei quantas horas a mais o pudim ficaria ali. No entanto, contra minhas pessimistas expectativas, abri a porta do forno ao soar do alarme e vi um pudim balouçante mas ligeiramente dourado, e quando lhe enfiei uma faquinha, desconfiada, a lâmina saiu surpreendentemente limpa.

Eureka!

Pudim perfeito, delicioso, doce na medida certa, lisinho... :)
Permissão para ser mãe: concedida.

PUDIM DE LEITE
(Do livro Baking - From My Home to Yours, de Dorie Greenspan)
Tempo de preparo: 30 min. + 40 min. forno + 5 horas para resfriar
Rendimento: 6-8 porções

Ingredientes
(calda)
  • 1/3 xic. açúcar cristal orgânico
  • 3 colh. (sopa) água
  • 1 espremidinha de limão
(pudim)
  • 1 1/2 xic. creme de leite fresco
  • 1 1/4 xic. leite integral
  • 3 ovos grandes, orgânicos
  • 2 gemas grandes, de ovos orgânicos
  • 1/2 xic. açúcar cristal orgânico
  • 1 colh. (chá) extrato natural de baunilha

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Coloque no forno uma forma de bolo (de alumínio, SEM antiaderente) de 20cm diâmetro e uns 5cm de altura (sem furo no meio). Coloque água para ferver. Quando ferver, desligue o fogo. Forre uma assadeira de bordas altas, onde caiba a forma, com um pano de prato. 
  2. Numa panela de inox, misture os ingredientes da calda. Leve ao fogo médio-alto, sem mexer, por cerca de 5 minutos, ou até que esteja de uma cor âmbar. Desligue assim que vir qualquer sinal de vapor ou fumaça. 
  3. Usando luvas, retire a forma quente do forno e despeje com cuidado o caramelo na forma, girando-a para cobrir todo o fundo. Reserve. 
  4. Coloque o leite e o creme de leite em uma panela média e leve à fervura. Enquanto isso, misture numa tigela os ovos, as gemas, o açúcar e a baunilha. Bata com um fouet vigorosamente para dissolver bem o açúcar e deixar homogêneo. 
  5. Misture 1/4 do leite quente aos ovos, batendo sempre com o fouet, para temperar os ovos e impedir que cozinhem. Misture o restante do leite quente, agora com uma colher de pau, até que não se veja mais espuma e bolhas em cima do líquido (retire a espuma com a colher, se necessário). 
  6. Despeje o creme sobre o caramelo na forma e posicione a forma no meio da assadeira forrada. Despeje a água quente na assadeira, até metade da altura da forma, tendo certeza de que o pano de prato está todo submerso e molhado. Leve cuidadosamente ao forno por 35-40 minutos, até que o pudim tenha inflado ligeiramente e esteja dourado aqui e ali. Teste inserindo uma faca no centro: a lâmina deve sair limpa. (Mas o pudim ainda balançará um bocado.)
  7. Retire do forno. Retire a forma de dentro da assadeira e deixe-a sobre uma grade. Passe uma faquinha nas laterais para soltar o pudim e deixe-o esfriar até temperatura ambiente (cerca de 1 hora). Então cubra mais ou menos com papel alumínio e leve à geladeira por no mínimo 4 horas.  
  8. Passe uma faquinha novamente nas laterais e desenforme rapidamente num prato com bordas.

terça-feira, 15 de março de 2011

Soba de chá verde com pepinos apimentados e cogumelos

Dizem que comida apimentada faz você entrar em trabalho de parto. Considerando a quantidade de vezes que comi esse prato nos últimos meses, mais toda a comida mexicana e asiática que andei preparando e comendo fora desde o início da gravidez, vou precisar engolir uma Scotch-Bonnet inteira para o expulsar o menino da barriga. O bebê já vai nascer pedindo pra botar Tabasco no leite.

A primeira vez em que preparei esse soba muito rápido e fácil, usei a quantidade inteira de pimenta calabresa pedida na receita (2 colheres de chá!). O marido, que come molho de pimenta brava de colher, lacrimejava a cada garfada. Então resolvi substituir as "colheres" de pimenta em flocos por "pitadas". E, mesmo assim, dependendo do tamanho da sua pitada, os pepinos absorvem o fogo da pimenta como uns loucos e você pode acabar exagerando na picância do prato.

Mas... vai do gosto do freguês. Gosto do apimentado que não mascara o sabor dos outros ingredientes. E você não vai querer mascarar os cogumelos no molho de ostra, a refrescância dos pepinos e o sabor interessantíssimo desse soba aromatizado com chá verde. O soba – que é uma massa feita de trigo sarraceno – pode ser encontrado na gôndola de produtos asiáticos dos bons mercados e empórios ou nos mercados da Liberdade, assim como essa variação com chá verde, que torna os fios esverdeados e seu sabor ligeiramente amargo. Mas, caso só encontre o soba comum, acho que o prato deve ficar igualmente bom.

Também troquei o caldo de legumes por água, não me importei em descascar ou retirar as sementes do pepino e já variei um bocado o tipo de cogumelos usado (shiitake, shimeji, enoki, às vezes misturado, às vezes um tipo só...), e sempre fica bom.

Fiquei feliz por ter encontrado no mercado um molho de ostra sem glutamato monossódico, um negócio que eu abomino e que me dá dor de cabeça. Na primeira vez em que fiz o prato, fiquei com preguiça de comprar o molho, pois estava de mudança e achei bobagem levar de um apartamento para o outro uma garrafa de molho de ostra recém-aberto. E preparei o soba com shoyu no lugar. Bem, o molho fez falta. Ele tem um sabor interessante e diferente e é bastante salgado, então nem se incomode em salgar o prato.

Aliás, se você gosta de pratos com um toque asiático, ter esses ingredientes em casa (mirin, molho de ostra, shoyu, nam pla, óleo de gergelim, soba e outras massas) é uma mão na roda para as noites sem tempo, pois há uma infinidade de receitas deliciosas que podem ser feitas em vinte minutos ou menos. :)


[A porção da foto é praticamente para duas pessoas; porção de mulher grávida de 38 semanas, urrando de fome...]

SOBA DE CHÁ VERDE COM PEPINOS APIMENTADOS E COGUMELOS
(ligeiramente adaptado da revista Donna Hay)
Tempo de preparo: 10 minutos (com o mis-en-place)
Rendimento: 4 porções

Ingredientes:
  • 1/4 xic. mirin (sake culinário, vinagre de arroz)
  • 1 colh. (sopa) suco de limão
  • 1 pitada generosa de pimenta calabresa em flocos
  • 1 colh. (sopa) sementes de gergelim, tostadas
  • 2 pepinos fatiados fino
  • 1 colh. (sopa) óleo de gergelim
  • 400g cogumelos (shiitake, shimeji, enoki, nameko, pleurotus...), fatiados, se necessário
  • 1/2 xic. molho de ostra (o do Panda é uma boa marca)
  • 1/2 xic. água
  • 270g soba de chá verde
  • 1 xic. folhas de hortelã
  • 3 talos de cebolinha grandes, picadas

Preparo:
  1. Cozinhe o soba conforme as instruções na embalagem, escorra e reserve. 
  2. Numa tigela, misture os pepinos fatiados, a pimenta, as sementes de gergelim, o mirin e o suco de limão. Reserve.
  3. Aqueça o óleo de gergelim numa frigideira grande e junte os cogumelos, cozinhando por 1-2 minutos em fogo alto. 
  4. Junte o molho de ostra, a água e o soba cozido e mexa bem por 1 minuto, ou até que a massa esteja coberta de molho. Desligue o fogo e junte os pepinos e seu líquido, a hortelã e a cebolinha. Misture bem e sirva. 

domingo, 13 de março de 2011

Curry de peixe de raspar o prato

Faltam apenas dois dias úteis para minha "licença-maternidade"; assim, entre aspas, porque freelancer tirando licença é quase tão improvável quanto a promessa da Unilever de que se comprando a margarina deles diminue-se a quantidade de doenças cardíacas no mundo. [Aliás, como eles ainda não foram processados por essas campanhas mentirosas, eu ainda não sei.] De qualquer forma, ainda mais agora que temos quase certeza de que o bebê venha um pouco adiantado, não vejo a hora de ter uma semaninha – só uma já estaria bom – de assistir a filmes com pé pra cima e fazer docinhos.

Chega de trabalhar. Já deu.

O quarto do bebê está pronto, a mala da maternidade (finalmente) também, e meu freezer está abarrotado de sopa veneziana de feijão, penne gratinado com espinafre e abóbora, torta de verduras e queijo, burritos, pães integrais, cookies de aveia, bolo de ameixa, de banana, brownies... tudo pra tentar facilitar os momentos sonâmbulos por vir.

Mas independente do que anda acontecendo dentro do freezer, o que tenho tido vontade de comer AGORA são mesmo temperos asiáticos. Já preparei diversas vezes um soba de chá verde com cogumelos e pepinos apimentados, macarrão chinês com peixe grelhado e legumes, e ando maluca para ir comer em um restaurante tailandês que um amigo recomendou.

Quando voltei da feira com dois filés enormes de Namorado, não tinha muita ideia do que fazer com eles. Até entrar no site do Jamie Oliver para reclamar de duas revistas minhas que extraviaram [e que serão enviadas novamente, porque eles são uns fofos e nem colocaram a culpa no correio brasileiro, como normalmente outras empresas fazem] e dar de cara com um Keralan Fish Curry.

Hmmmmmmm....

Cuuuuuurryyyyyyy...

:)

Não deu outra. Seria um excelente prato para estrear a lata de leite de coco tailandês que eu comprara a preço de ouro na Bombay. Explico: fico enfurecida de sermos um país em que se produz tanto coco, e não termos uma desgraça de uma garrafinha de leite de coco que seja de verdade. Todas as marcas têm água como ingrediente principal e gomas e estabilizantes para engrossar o caldo que pouco coco têm. Quando peguei aquela lata de aço na mão e li "extrato de coco, água e ácido cítrico", fechei os olhos para o preço e mandei bala. Sinceramente? Vale cada centavo. A textura é de creme, e o gosto é sensacional: como se eu tivesse aberto um coco maduro e raspado a carne branca para comer. É fresco e delicioso! COMPLETAMENTE diferente da textura aguada e do retrogosto ligeiramente amargo das nossas garrafinhas brasileiras. O que me deixou ainda mais enfurecida.

Sei que posso fazer o leite de coco em casa, muita gente já me disse isso. Mas numa quinta-feira à noite, de supetão, quando não posso sair e comprar um coco fresco, é bom saber que existe uma alternativa que fique me esperando na despensa.

O prato é facílimo de fazer e, enquanto mexia a panela e experimentava o caldo espesso em torno do peixe, não conseguia acreditar em como aquilo estava delicioso! Quando raspei o último resquício do molho da tigela, fiquei triste por não ter feito uma porção maior, pois, contrariando toda a minha política culinária, deus! como queria ter repetido o prato! ;)

CURRY DE PEIXE
(porções adaptadas daqui)
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 2 porções

Ingredientes:
  • 2 filés grandes de namorado (ou outro peixe branco firme), sem pele, cortado em pedaços de 2,5cm
  • óleo vegetal
  • 1/4 colh. (chá) sementes de mostarda
  • 5 folhas de curry (encontradas na loja Bombay)
  • 1 cebola pequena, fatiada fino
  • 1 dente de alho, fatiado
  • 1 pedaço de 2cm de gengibre fresco, ralado
  • 1/2 pimenta chilli verde, sem sementes e picada (usei meio jalapeño)
  • 1/8 colh. (chá) pimenta caiena em pó
  • 1/4 colh. (chá) cúrcuma
  • 1/2 xic. leite de coco
  • 1/2 xic. tomates italianos em lata, com seu suco (amasse um pouco o conteúdo da lata, antes de medir e guarde o que sobrar na geladeira)
  • coentro fresco

Preparo:
  1. Aqueça um fio de óleo numa frigideira grande e junte as sementes de mostarda e as folhas de curry. Sem deixar queimar, espere que as sementes comecem a estourar. 
  2. Junte a cebola, o alho, o gengibre e o chilli e cozinhe em fogo médio-baixo, por uns 5 minutos, até que a cebola amoleça. 
  3. Misture a pimenta caiena e a cúrcuma em uma colherinha de água e junte à panela. Mexa tudo por 1 minuto e junte o peixe. Tempere com sal. 
  4. Junte o leite de coco e os tomates, misture muito bem, e cozinhe em fogo baixo, mexendo de vez em quando para não pegar no fundo, por 15-20 minutos, ou até que o peixe esteja cozido e o líquido, reduzido. 
  5. Acerte o tempero, polvilhe com bastante coentro picado e sirva com arroz basmati. (Ficou ótimo com arroz integral!)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Bolo integral de bananas e framboesas

Tem dias em que queremos fazer tudo direitinho, by the book, dentro das regras, e só tomamos na cabeça. Há outros em que inventamos de fazer tudo do avesso e as coisas inexplicavelmente dão certo. Quando a gambiarra sai melhor do que o esperado. Quando parece que os planetas se alinham e o universo não deixa que você se estrumbique apesar da probabilidade alta.

Parece que com bolos acontece a mesma coisa. Num dia, segue-se a receita à risca e o bolo explode, transborda, afunda, transforma-se numa gororoba incomível de proporções épicas. E noutras vezes, lutando contra todos os instintos, resolvemos fazer uma receita que não especifica tamanho de forma, que usa "pote de iogurte" e "envelope de fermento" como medidas, mudamos o tipo de óleo e a quantidade de frutas, e parece que Murphy dá um tempo, e tudo sai maravilhosamente bem.

Este bolo de bananas ficou muito saboroso com o uso da farinha integral, que tem um gosto naturalmente amendoado, e me fez pensar em, na próxima vez, substituir as framboesas por gotas de chocolate. Na falta de um óleo mais neutro, como canola, acabei arriscando e usando azeite de oliva extra-virgem, bem frutado, não muito forte. Sente-se algo de diferente na massa, mas ficou muito gostoso mesmo assim, ainda que prefira usar um óleo mais suave da próxima vez.

BOLO INTEGRAL DE BANANAS E FRAMBOESAS
(livremente adaptado da revista francesa Saveurs)
Tempo de preparo: 20 minutos + 45 minutos de forno
Rendimento: 1 bolo de 20x30cm

Ingredientes:
  • 1/2 xic. iogurte integral caseiro
  • 3 ovos grandes, orgânicos
  • 1 xic. açúcar cristal orgânico
  • 1 1/2 xic. farinha integral fina (orgânica)
  • 1 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 1/4 xic. + 2 colh. (sopa) óleo
  • 2-3 bananas, dependendo do tamanho, maduras e amassadas
  • 1 punhado de framboesas
  • manteiga para untar

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 205ºC. Unte uma assadeira de alumínio de 20x30cm.
  2. Numa tigela média, misture o iogurte, os ovos e o açúcar, misturando bem com um fouet. Junte a farinha e o fermento, misturando novamente, até que não se vejam mais grumos de farinha, e então junte o óleo, misturando até que fique homogêneo. 
  3. Junte a banana amassada, misturando com uma espátula. Despeje na forma e distribua as framboesas, afundando-as um pouco na massa. 
  4. Leve ao forno por 40-50 minutos, ou até que esteja dourado e um palito saia limpo quando inserido no centro do bolo. Retire do forno e deixe esfriar na forma, sobre uma grade. Passe uma faquinha nas laterais e desenforme.

terça-feira, 1 de março de 2011

Um bebê numa mão, um burrito na outra

Na minha pesquisa sobre bons pratos congeláveis, acabei caindo justamente em posts do The Kitchn que falavam dessa fase de correria que são os primeiros meses de um bebê novinho em folha em casa, e sobre a fome avassaladora que se tem ao amamentar. Hmmm... essa segunda parte foi uma novidade e um "heads up!", pois não achei nenhuma graça, nos primeiros meses da gravidez, em acordar de madrugada urrando de fome e não ter nem um pãozinho com manteiga pra comer. Bom saber. Assim posso deixar prontas coisas com mais cara de "lanche da meia-noite" do que legumes ao curry.
Acabei caindo no site da Dona Martha, e me apaixonei pela ideia de congelar burritos, tanto para as refeições quanto para os momentos de fome avassaladora. Usei a receita do site mais como uma inspiração, pois não queria usar feijões em lata ou milho congelado. Mas, confesso, com o montante de tempo livre que tenho, a perspectiva de abrir tortillas de farinha no braço não me animou. Fiz vista grossa, portanto, e comprei um pacote delas prontas, versão nacional, que eram tão nhanha quanto as importadas, só que menores e mais baratas.
 Os burritos, feitos com as tortillas nacionais, ficaram menores, e precisei ser comedida no recheio para que conseguisse enrolá-los sem que explodissem. Mas gostei deles assim pequenos, pois esquentarão mais rápido no forno e poderei medir melhor a porção em relação ao tamanho da fome. 

Para o recheio, usei minha receita favorita de todos os tempos de chilli, de Deborah Madison, e usei milho fresquinho, orgânico, que refoguei em azeite, jalapeño e cebolinhas. No lugar do Monterey Jack, que não se encontra por aqui, usei Cheddar.

Tivesse comprado mais um pacote de tortillas, o recheio teria rendido mais unidades. Mas achei que dez burritos eram o bastante, então guardei o excedente de arroz e chilli para o jantar de hoje. Não vejo a hora de requentar uma dessas belezuras! ;)

BURRITOS (para congelar ou comer na hora)
Tempo de preparo: 2h p/ preparar o chilli e o restante + 20 min. de montagem
Rendimento: 10 burritos pequenos, feitos com pães tipo tortillas nacionais de 20cm

Ingredientes:
  • 1 1/2 xíc. de arroz integral já cozido
  • 2 xic. chilli de feijão preto (receita a seguir)
  • azeite
  • 1 espiga grande de milho-verde orgânico
  • 1 pimenta jalapeño fresca
  • 5 talos de cebolinha
  • 1 1/2 xic. de queijo tipo Cheddar ralado grosso
  • 10 tortillas de farinha (nacionais ou importadas)

Preparo:
  1. Enquanto o chilli cozinha, prepare seu arroz integral e deixe que esfrie.
  2. Retire os grãos da espiga com uma faca. Corte a pimenta ao meio, retire e descarte as sementes e pique a pimenta. Pique a cebolinha.
  3. Aqueça um fio de azeite numa frigideira pequena e refogue o milho, a pimenta e a cebolinha apenas por um ou dois minutos, em fogo alto, sem deixar queimar, apenas até que o milho esteja cozido. Tempere com sal a gosto. Retire do fogo e.
  4. Quando o chilli estiver pronto, separe a porção que vai usar para os burritos e misture ao milho. 
  5. Aqueça uma frigideira limpa, sem óleo, e doure as tortillas conforme as instruções do pacote. Mantenha as tortillas pontas embrulhadas em um pano de prato, para que seu próprio vapor as mantenha maleáveis. 
  6. Disponha uma tortilla num prato. Coloque uma colher de arroz, duas ou três de chilli e polvilhe com o queijo. Feche as laterais da tortilla e enrole-a para longe de você, apertando bem o recheio, até que as abas estejam na parte debaixo do burrito. Se vai congelá-los, é mais fácil fazer isso já sobre o papel-alumínio, para que não desmontem. Transfira o burrito com o papel-alumínio aberto para uma assadeira, para que esfrie totalmente antes de você terminar de embrulhá-lo. Repita com os outros burritos.
  7. Termine de embrulhar os burritos já frios, rotule-os e leve ao freezer. Para facilitar, já escreva neles as instruções para requentá-los e a data de validade. Eles podem ser congelados por até 3 meses. Para requentá-los direto do freezer, leve ao forno a cerca de 240ºC por 40 minutos (imagino que assim menores não levem mais que 30 minutos), desembrulhe-os e asse por mais 10 minutos, se quiser a tortilla crocante. Se tiver descongelado o burrito durante a noite, basta aquecê-los por 10 minutos. ATENÇÃO: estou usando apenas papel-alumínio para embrulhá-los. Se você usar filme-plástico, deve desembrulhar o burrito e envolvê-lo em papel alumínio antes de levá-lo ao forno. 
CHILLI DE FEIJÃO PRETO
(Ligeiramente adaptado do livro The Greens Cookbook, de Deborah Madison)
Tempo de preparo: 12 horas para deixar os feijões de molho e cerca de 2 horas cozinhando
Rendimento: cerca de 4 xícaras

Ingredientes:
  • 1 xic. de feijões pretos secos 
  • 1 folha de louro
  • 2 colh. (chá) sementes de cominho
  • 2 colh. (chá) orégano seco
  • 2 colh. (chá) páprica
  • 1/4 colh. (chá) pimenta caiena
  • 1 1/2 colh. (sopa) azeite de oliva
  • 1 cebola grande, picada
  • 2 dentes de alho, picados
  • 1/4 colh. (chá) sal
  • 1 lata de tomates italianos pelados
  • 1/2 colh. (chá) de pimenta chipotle em adobo* (opcional)
  • 1/2 colh. (sopa) de vinagre de arroz (mirin)
  • 1 punhado de coentro fresco, picado

Preparo: 
  1. Deixe os feijões de molho durante a noite. Quanto mais tempo, mais rápido eles cozinham. No dia seguinte, escorra os feijões, coloque numa panela grande, cubra de água, acrescente a folha de louro e leve ao fogo alto até levantar fervura. Abaixe para o mínimo e deixe cozinhando enquanto você prepara o restante. 
  2. Aqueça uma frigideira bem grande. Despeje as sementes de cominho e, quando começarem a dourar, junte o orégano, mexendo sempre. Assim que perfumar, desligue o fogo e junte a páprica e a caiena, mexendo bem. Esses temperos tostam em apenas alguns segundos. Transfira para um pilão e moa a mistura. 
  3. Limpe a frigideira e volte-a ao fogo médio, com o azeite. Junte a cebola e refogue até que amoleça. Junte o alho, o sal e os temperos moídos e cozinhe por cerca de 5 minutos, sem deixar queimar. 
  4. Junte os tomates e seu suco, a pimenta chipotle (se estiver usando), e cozinhe em fogo baixo por cerca de 15 minutos, desmanchando os tomates com a colher de pau.
  5. Junte a mistura de tomate aos feijões, e, se necessário, junte mais água para que haja uns 2 centímetros de líquido acima dos feijões. Continue cozinhando em fogo baixo até que os feijões estejam macios, cerca de 1 hora ou mais. Acrescente mais água sempre que necessário.
  6. Quando os feijões estiverem prontos, acerte o tempero e adicione o vinagre e o coentro.
*O Chipotle em adobo pode ser encontrado no Empório Santa Luzia.
 

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Bolo de ameixas, avelãs e marzipan; para hoje e para depois

Eu não sou idiota. Sei bem que o complexo de mulher maravilha não vai resistir às noites mal dormidas dos primeiros meses de existência de um bebê. E que nem toda a força de vontade do mundo vai me convencer a ficar de pé sovando pão ao invés de cochilar enquanto o pequeno estiver dormindo. Mas isso não quer dizer que eu esteja disposta a abdicar do meu estilo de vida e de tudo aquilo que mais prezo. De nada vai me adiantar amamentar se todo o "combustível" usado para gerar esse leite vier de alimentos que não prestam.

Então elaborei um plano.

Desde que me mudei, tenho preparado muita coisa em dobro. Não os pratos fáceis, desses que preparo mesmo em dias atolados de trabalho, exausta; mas aquilo que mais senti falta durante aqueles trinta dias fora da minha cozinha: pães, bolos, caldos, biscoitos... o tipo de coisa que a maioria compra pronta em embalagens plásticas. E que dão mais trabalho para preparar quando se está cansada.

Toda vez que me disponho a fazer pão, dobro a receita. Um pãozinho vai para a mesa, o outro é embalado em papel-alumínio, rotulado e acomodado no freezer [aqui em casa agora, pra embalar comida, só papel-alumínio ou papel-manteiga; aboli o filme-plástico]. Se eu fizer um bolo cujo texto da receita sugere o congelamento, faço o mesmo. Principalmente pound cakes e quick breads, uma vez que eles congelam muito bem e tenho mais de uma forma de bolo inglês. Tem sido reconfortante saber que quando me der vontade de comer um bolinho caseiro, ou uma fatia de algum pão mais complexo que um pãozinho francês de padaria (o único que ainda compro quando não consigo fazer o meu), é só tirar um dos pacotinhos prateados do freezer e deixá-lo descongelando durante a noite.

Pretendo também deixar algumas refeições encaminhadas. Bases de torta são ótimas para se congelar,  e já tenho uma grande me esperando para quando eu só tiver forças para misturar alguns ovos, creme e qualquer vegetal e jogar dentro da base. Pro forno com ela e pimba! jantar. Quero muito deixar pronta uma travessa de macaroni & cheese com espinafre e abóbora, cuja receita recortei de uma revista inglesa que falava justamente sobre pratos bons para serem congelados. Além de reconfortante, tem gostinho de outono, quando meu mini-metaleiro chegará.

Da mesma reportagem de congelados, eu recortara essa receita de bolo de ameixas, apetitosíssima. Das frutas de caroço, as ameixas são as melhores do momento, e continuarão uma delícia por boa parte do início do outono. Fiquei entusiasmada ao ver sua variedade no mercado, e tenho planos para cada uma delas. Para esse bolo, usei as ameixas Letícia; firmes, azedinhas e que descaroçam facilmente.

Tive de fazer uma adaptação na receita original. Passara no mercado para me abastecer de ovos e farinha orgânicos, e depois de mais um momento frustrante na fila do caixa preferencial, barrigão desconfortável, calor e pés imensos latejando dentro da sandália, cheguei em casa exausta, decidida a não mais sair àquele dia, apenas para descobrir que me esquecera de comprar amêndoas. Mandei tudo às favas e substituí as amêndoas moídas por parte de seu peso em farinha e omiti as amêndoas laminadas no final.

O resultado ficou excelente. Havia uma caldinha de limão e açúcar que omiti: o bolo é já suficientemente saboroso sem ela. Preparei uma assadeira inteira e cortei-o ao meio, congelando uma das metades embalada em papel-alumínio. A outra metade... bem... já está na metade. O bolo é muito macio, sua massa é doce, pontilhada de marzipan que derrete na boca e avelãs picadas, crocantes, e entremeada por fatias azedinhas de ameixa, que se desmancham. Delícia! Não vejo a hora de descongelar a segunda metade... ;)  

BOLO DE AMEIXAS, MARZIPAN E AVELÃS
(ligeiramente adaptado da revista Delicious)
Tempo de preparo: 25 min + 50 min de forno
Rendimento: 1 bolo de 20x30cm ou 23cm2

Ingredientes:
  • 200g manteiga sem sal, em temperatura ambiente
  • 200g açúcar cristal orgânico
  • 4 ovos grandes, orgânicos, em temperatura ambiente
  • 200g farinha de trigo
  • 2 colh. (chá) fermento químico em pó
  • 50g avelãs
  • 120g marzipan
  • 500g ameixas maduras

Preparo:
  1. Pré-aqueça o forno a 180ºC. Unte uma assadeira (sem antiaderente) de 20x30cm ou uma forma quadrada de 23cm (e 5cm de altura) com manteiga e forre o fundo com papel-manteiga. 
  2. Em outra assadeira, coloque as avelãs e leve ao forno já quente, para tostá-las, por cerca de 15 minutos. Enquanto isso, pique o marzipan e reserve. Corte as ameixas em quartos ou oitavos, dependendo do tamanho, retirando o caroço, e reserve. Quando as avelãs estiverem torradas, coloque-as num pano de prato e esfregue-as para que soltem a pele. Transfira as avelãs para uma tábua e pique-as.
  3. Bata a manteiga e o açúcar na batedeira até que fique claro e fofo. Acrescente os ovos, um a um, batendo bem a cada adição. Se a mistura começar a talhar, junte um pouquinho da farinha e bata até estabilizar.
  4. Junte a farinha e o fermento aos poucos, batendo em velocidade média até que fique homogêneo. Desligue a batedeira e, com uma espátula, incorpore as avelãs picadas e o marzipan. Espalhe na forma, alisando a superfície com a espátula e distribua as fatias de ameixa, afundando-as ligeiramente na massa.
  5. Leve ao forno por 50 minutos ou até que um palito saia limpo ao ser inserido no centro. Retire do forno e deixe esfriar na assadeira por uns 15 minutos. Então desenforme e deixe que esfrie completamente sobre uma grade antes de servir ou embalar bem e congelar por até 3 meses.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Picolé de melão e pistache para um dia mequetrefe

Tem dias em que o bom humor é como areia fina nas mãos. Você acorda bem, o céu está azul, o café da manhã é gostoso, o cachorro está sendo fofo, você ama seu marido, o bebê está chutando. Você finalmente acordou cedo o bastante – graças ao fim do horário de verão – para conseguir ir ao treino de corrida caminhar um pouco e rever seus amigos. Nem o fato de que o tênis de corrida incomoda seus pés de melão parece tirar seu sorriso do rosto.

O mundo é um lugar bom. As pessoas são legais. Tudo vai dar certo.

Então o dia se desenrola. E conforme você vai tropeçando nos acontecimentos, você começa a acreditar que o universo está testando sua fé na humanidade. É o tiozinho perfeitamente jovem e saudável de carrinho cheio na fila preferencial do supermercado, a capa de almofada nova que veio com o zíper quebrado, é um idiota que faz uma idiotice e envolve você e sua família num pepino enorme e totalmente desnecessário a essa altura da sua vida, e mais um sem número de demonstrações de falta de civilidade que fazem você pensar que o mundo talvez seja um lugar horrível. E que as pessoas são:

a. sem noção
b. sem educação
c. sem caráter
d. todas as alternativas.

E que talvez o universo não seja justo desde a extinção dos dinossauros, e tudo está fadado a ser um desastre, no fim das contas. E você sente, ao longo das horas, aquele seu bom humor escorrendo rápida e inevitavelmente por entre seus dedos. O sabiá da sua janela vai embora e alguém liga novamente uma serra circular no seu quarteirão.

Então você senta na beira da cama e contém o choro de raiva. Tenta se lembrar do modo como o dia começou. Do céu azul, do beijo de tchau, do modo doce como o cão olha para você simplesmente porque você está acordada e existe, das risadas com os amigos.

Inspira. Expira.

Decide que não vai mais atender o telefone pelo resto do dia, porque não quer mais más notícias entrando pelo ouvido e porque precisa parar de ser interrompida toda vez que senta para trabalhar. Então se lembra de que tem sorvete de melão no freezer. Levanta-se, dá dois passos em direção à cozinha e então estaca, receosa: e se não tiver dado certo? E se tiver ficado uma porcaria? Vai ser a gota d'água e você vai sair pelas ruas, a grávida louca, degolando seres humanos aleatoriamente.

Não. Vai estar bom. Precisa estar bom. Tem que ter dado certo. Eu acredito que o sorvete de melão vai salvar meu dia.

Bendita Santa Martha entre as mulheres. Delicioso e refrescante sorvete de melão, doce e pontilhado de pistaches. E tão simples! Valera a pena recortar aquela receita de uma revista sua e guardá-la no caderno. E esperar pelos bons melões do verão. Os que não são meus pés.

Vá lá. Se o seu dia não está lá essas coisas, compre um melão maduro de 1,5kg. Ela pede o HoneyDew; usei o Gália, que estava mais perfumado. Retire a casca e as sementes, e corte a polpa em quadrados. Bata no liquidificador até virar suco; tem que dar umas 4 xícaras. Numa tigela, misture 1/4 xic. de mel e 1/2 xic. de creme de leite fresco, bem gordo e saboroso. Junte o suco de melão e misture bem. Distribua alguns pistaches pelas forminhas de picolé. E despeje a mistura de melão nelas. Leve ao freezer. Se estiver usando palitos soltos, deixe gelar umas 2 horas antes de colocar os palitos, e então gele por mais 6 horas antes de servir. Metade da receita encheu minhas 6 formas. Tão, tão bom... Dá de dez no Melona e restaura o bom humor.

[Obs: porque já tá chovendo a pergunta, aqui vai a resposta: comprei as forminhas de picolé numa Bed, Bath & Beyond, em Nova York.]

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Salada de melancia para a melancia que eu carrego

Eu tenho um mês para entregar todos os trabalhos pendentes, para então ter como única preocupação esperar o bebê decidir nascer. Afinal, deus me livre ter de levar ilustrações para finalizar na maternidade! ;)

Correria à parte, fiquei felicíssima na última consulta médica ao descobrir que após meras duas semanas comendo minha comida, tudo voltou ao normal. Pessoinha saudável de bebê gostoso novamente. Muitos grãos integrais, muitas frutas e verduras frescas, pão, bolo e iogurte, tudo caseiro. Haveria coisa melhor? Fico satisfeita em ver que Michael Pollan tinha razão: coma comida; não muito; principalmente vegetais. Sábias palavras.

E eis o resultado. Boa comida, não muito, principalmente vegetais e exercício o bastante para não virar uma grávida-ameba. Sempre quis ser dessas grávidas que você só nota a gravidez quando elas viram de lado, mas confesso que nunca achei que conseguiria, com toda a minha tendência infantil e adolescente às gordurinhas. O engraçado é que não foi esforço nenhum. Bastou continuar fazendo o que eu já fazia antes. Comer comida de verdade e tirar a bunda do sofá. Para quem estava curioso pra ver o barrigão, tchananans! Foto mequetrefe de computador, tirada ontem.
Para nutrir minha pequena melancia e afastar o calorão, o almoço vapt-vupt de hoje foi uma salada de melancia e tomates. Eu me lembrava de várias saladas de melancia em diversos livros e sites diferentes, mas confesso que morri de preguiça de ir atrás de uma específica e simplesmente improvisei. Misturei pedaços de melancia (sem as sementes), tomate orgânico, queijo feta, azeitonas pretas kalamata, salsinha e cebolinha picadas e temperei com um pouco de suco de limão, muito azeite, sal e pimenta-do-reino moída na hora. Tão gostoso e tão refrescante que quero comer de novo amanhã. :) (Falei que a sobremesa foi bolo de chocolate?)

O pequeno metaleiro dentro de mim se espreguiça satisfeito após um almoço gostoso e me lembra de cochilar por cinco minutinhos antes de voltar para a correria do trabalho.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Salada de grão-de-bico, atum e alcachofras

Os afazeres não terminam nunca. Há tantos pequenos reparos ainda a serem feitos no apartamento novo, e, ao mesmo tempo, tanto trabalho para entregar, que tem sido difícil incorporar tudo à nova rotina modificada por meus pés de melão. Tenho contado com a ajuda de minha mãe para correr para cima e para baixo, ao correio, ao supermercado, passeando o cachorro, pois nesse calor não posso dar dois passos fora de casa sem que minha pressão despenque. 

E o bebê não pára quieto na barriga, chutando e se movendo o tempo todo, tentando me lembrar de que preciso, de vez em quando, parar um pouco e descansar (mas quem consegue??).

No espírito vapt-vupt, na tentativa de conseguir quinze minutinhos para colocar os pés de melão para cima, passei no mercado e comprei uma latinha de atum em azeite de oliva e uma lata de grão-de-bico conservado apenas em água e sal. Apanhei uma receita de sanduíche de Giada di Laurentiis e transformei-a em salada. Misturei o grão-de-bico, o atum e alcachofras em conserva numa tigela. Juntei um pouco de azeitona preta picada, um dente de alho minúsculo bem picadinho, raspas e suco de limão, um punhadinho de folhas de hortelã, azeite e pimenta-do-reino. Rúcula teria sido bem-vinda, mas não havia nenhuma em casa. Usei minhas alcachofras em conserva, que, muito menorzinhas do que a receita pedia na época, acabaram meio molenguinhas do cozimento e excessivamente ácidas do vinagre. Ainda assim, a salada ficou ótima. Acompanhei-a de pés pra cima e um copão de suco de laranjas orgânicas recém-espremidas. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Compota rápida de cerejas

A correria da mudança, que me impediu de cozinhar por quase um mês inteiro, causou-me uma estranha frustração: passei janeiro inteiro pensando nas frutas que vinham e iam, completamente fora de meu alcance culinário. Afinal, eu esperara um ano inteiro por pêssegos, nectarinas, damascos, cerejas, mangas, melões, melancias, e a qualquer momento elas poderiam não estar mais no seu pico de gostosura.

Por isso, tão logo liguei minha geladeira na tomada e conectei meu fogão na tubulação de gás, corri ao mercado e comprei 1kg de cerejas, enormes, escuras e doces, antes que desaparecessem das gôndolas por mais um ano.

Eu criara fantasias em minha mente com centenas de doces que gostaria de produzir com cerejas, mas nenhuma me fazia salivar tanto quanto a ideia de uma compota. Desde a viagem a Nova York, no começo do ano passado, eu andava querendo reproduzir a sobremesa que comera em um restaurante escandinavo: um delicado arroz doce coberto de compota de cerejas e amêndoas laminadas. Delicioso!

Procurei pouco nos livros que me restaram [e comprovei que só mantive na estante o que de fato amo e uso, pois nem me lembrei de procurar receitas nos outros, encaixotados] e encontrei o que queria: uma compota rápida e simples de Alice Waters, do livro Chez Panisse Desserts, de Lindsey Remolif Shere. A compota demora pouquíssimos minutos para fazer, e você sequer precisa descaroçar as cerejas. Isso porque o caroço das cerejas contribui em sabor para a compota (razão pela qual os franceses normalmente os mantém mesmo no clafoutis).

 Apanhe 1kg de cerejas, lave-as em água corrente, descartando qualquer uma que esteja passada, e retire os cabinhos. Distribua em uma camada única em uma panela de fundo bem grosso e polvilhe 1/4 xic. de açúcar (orgânico) por cima. Ligue o fogo alto e sacuda a panela (ou use uma colher de pau, como eu fiz, pois a panela é um bocado pesada e eu não queria riscar o fundo dela na grade do fogão) para misturar as cerejas ao açúcar. Faça isso por cerca de 5 minutos ou até que o açúcar tenha derretido e as cerejas estejam ligeiramente macias ao toque (cuidado para não se queimar – lembre-se: açúcar derretido). O açúcar primeiro formará cristais esbranquiçados sobre as cerejas antes de começar a derreter.  No começo parece que tudo vai queimar irremediavelmente, pois cerejas não se desfazem facilmente como outras frutas. Mas, de repente, ao fim dos 5 minutos, você verá um lindo líquido púrpura e espesso no fundo da panela. Nesse momento, espalhe 2-3 colheres (chá) de vinagre balsâmico e 1 colher (chá) de Kirsch (na falta de Kirsch, usei uma cachaça de qualidade) e sacuda por mais 30 segundos. Desligue o fogo e, com cuidado, raspe o conteúdo da panela, com todo o líquido, para outro recipiente. Deixe que esfrie um pouco e libere todo o vapor antes de tampar e levar à geladeira, até que fique em temperatura ambiente. Então deixe repousar por uma ou duas horas antes de servir.

Minha compota passou a noite na geladeira. Quando abri o pote, as cerejas, muito macias, pareciam ter liberado ainda mais líquido. Não tive paciência para preparar o arroz doce. Despejei um pouco de iogurte caseiro num potinho e distribuí fartas colheradas da compota. Veredito: estou feliz por ter feito a receita inteira, pois o resultado é fenomenal. O vinagre balsâmico de fato intensifica o gosto das cerejas, que ficaram deliciosamente doces e macias, desmanchando na boca. Ficaram sensacionais com o iogurte e não vejo a hora de despejá-las sobre sorvete de baunilha.   

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Primeiro bolo da casa nova: banana, coco e pecãs

Eita.

Janeiro foi um mês de correria desenfreada, esforço além da conta, encaixota, desencaixota, arruma, organiza, joga fora, monta, compra, instala, conserta, anda prá lá, corre prá cá, carrega, leva, traz, limpa, esfrega, aspira, coloca no lugar.

E ainda não acabou.

O quarto ainda está sem lustre, minhas tralhas de arte ainda não têm armário, o quarto do bebê ainda é um depósito do que não tem lugar definitivo, o depósito ainda tem latas de tinta, a cozinha não tem prateleira embaixo da pia, e quase todas as minhas formas e panelas continuam dentro de uma enorme caixa de papelão, esperando seu destino final.

Não estivesse grávida, talvez estivesse tirando tudo isso de letra, mas confesso que não foram poucas as noites de pés inchadíssimos em que quis sentar no chão e chorar de exaustão. Não via a hora de poder olhar em volta e começar a me sentir razoavelmente em casa, ao invés de ter aquela estranha e inquietante sensação de estar morando na casa de praia de outra pessoa.

Saí tanto da minha rotina (e sou metódica, lembram?), que quando fui ao mercado pela primeira vez depois da mudança, não fazia a menor ideia do quê comprar para preencher a geladeira vazia. Senti-me como uma mocinha recém-casada que não sabe preparar arroz. Demorei alguns bons dias para restabelecer a força de vontade e a confiança em preparar uma refeição na cozinha nova: esse espaço estranho onde as coisas não estão em seu lugar e onde você ainda não sabe se movimentar direito.

Bem... o resultado da maratona toda foi que, além de desidratar um bocado na onda de calor da semana passada, fiquei anêmica. O médico não acreditava no resultado dos exames, feitos há alguns dias atrás. "Mas você come tão direitinho...", balbuciou ele. "Não esse mês", expliquei. Durante os 30 dias que o processo de mudança levou, vi minha dieta balanceada ser rapidamente substituída pelo que eu chamo de "O Modo Como os Outros Comem": muita comida pronta, muito take-out, muito pão com queijo, suco mequetrefe, refrigerante, comida rápida, restaurante. Detalhe: não estou falando de McDonald's e lasanha congelada, mas as opções TEORICAMENTE mais saudáveis do mundinho do industrializado. Aquelas que dizem não ter gordura trans e estar cheias de vitaminas.

Se por um lado fiquei enfurecida e chateada com o resultado dos exames (sem contar preocupada), por outro senti-me profundamente convicta de meu estilo de vida. Minha comida me deixava saudável. O Modo Como os Outros Comem, não. Para onde foi a vitamina C do suco de laranja de garrafa? Pro meu corpo é que não foi. Enquanto isso, minhas laranjas orgânicas, minha salsinha e meu espinafre nunca me deixaram na mão. Se eu já não acreditava em inserção de nutrientes em alimentos, em vitaminas isoladas, agora o negócio ficou feio.

Era o chute na busanfa que faltava para me jogar de volta ao fogão. Fui ao mercado e comprei tudo o que gostaria de ter preparado em janeiro e não pude, tirei algumas panelas da caixa e mãos à obra. A primeira garfada no arroz integral com noz moscada e pecãs, omelete e salada de tomates orgânicos me fez suspirar e perceber o quanto eu sentira falta de minha própria comida. Há um frescor nela que não encontrei em nenhum outro lugar no mês que se passou.

Isso também me fez correr para minha estante de livros de culinária. Mesmo mandando alguns volumes embora, eu continuava acreditando que havia mais livros ali do que deveria. Eles continuavam ocupando duas fileiras, uma atrás da outra, nas prateleiras, e isso me incomodava. Em contraste com o que já estava organizado na sala, aquilo parecia incrivelmente entulhado. Retirei todos do lugar então, e comecei a guardá-los novamente. Primeiro, meus favoritos. Depois, os que ainda estou explorando. E então me dei conta da quantidade de livros que andava guardando que estava sem uso. Não por serem ruins, mas porque não condiziam mais com o tipo de cozinha que, hoje em dia, mais me agrada. Passara pela fase de exploração de técnicas complicadas de confeitaria ou de pratos "práticos" ou excessivamente rebuscados, e, no meio do processo, encontrara meu nicho: confeitaria americana e italiana, bem confort food, e pratos muito frescos, não necessariamente rápidos de fazer, mas usando ingredientes bons e acessíveis.

Coloquei na pilha do UT todos aqueles que não entravam mais nessas categorias. E vi minhas prateleiras finalmente limpas, em fileira única, contendo apenas os livros que eu de fato uso e aprecio. Mais de 100 livros tornaram-se 70. Um bocado ainda, eu sei, mas eu realmente uso esses 70. Eu juro.

Reenergizada por essa limpeza e pela boa comida, achei que era hora de fazer minha cozinha nova ter cheiro de bolo. Antecipando a nova (e bem-vinda) correria que acontecerá daqui a 8 semanas (e também porque a tomada reservada para minha batedeira ainda não está funcionando), escolhi uma receita simples da dona Martha Stewart, que não apenas pode ser feita com uma colher, como faz dois bolos, um dos quais será congelado para uso posterior.

Foi muito bom ter agora o apoio de uma mesa na cozinha, além da pia e da bancada. Ver o livro de receitas aberto com espaço entre as tigelas, sem ficar caindo da beirada, foi reconfortante. Quando a casa se encheu do perfume quente de banana, coco e nozes, a sensação dos ladrilhos antigos na sola dos pés pareceu subitamente familiar. Ver o cão deitado sob a mesa da cozinha pareceu uma imagem habitual, e eu finalmente me senti em casa.

O bolo ficou fantástico. Muito macio e saboroso, cheio de texturas, perfumadíssimo. Comi duas fatias, uma após a outra. Posso agora retomar minha rotina. Minha cozinha, minha comida, meus legumes, meus bolos. Em dois dias comendo minha comida (que tem muito pouco sal), meus pés desincharam consideravelmente e meu humor melhorou um bocado. Nunca mais. Nunca mais vou comer dO Modo Como os Outros Comem. Principalmente agora, com mais espaço para minhas desventuras culinárias. É hora então de me preparar para mais um período em que não terei tempo ou forças para cozinhar. Mas desta vez, haverá muitos pães, bolos, caldos e bases de torta congelados. Tudo caseiro. Tudo de verdade. E meu bolo de banana.

BOLO DE BANANA, COCO E PECÃS
(do Livro Martha Stewart's Baking Handbook)
Tempo de preparo: 20 min. + 60 min. de forno
Rendimento: 2 bolos ingleses

Ingredientes:
  • 3 xic. farinha de trigo
  • 1 colh. (chá) bicarbonato de sódio
  • 3/4 colh. (chá) sal
  • 3 ovos grandes, orgânicos
  • 2 xic. açúcar orgânico
  • 1 1/3 xic. óleo vegetal
  • 2 colh. (sopa) extrato natural de baunilha
  • 1 1/2 xic. bananas maduras amassadas (cerca de 3 nanicas)
  • 1 xic. coco ralado
  • 1 xic. pecãs, tostadas e picadas
  • 1/2 xic. buttermilk (leite + uma colherinha de vinagre)

Preparo:
  1. Unte com óleo em spray ou manteiga duas formas de bolo inglês e pré-aqueça o forno a 180ºC. 
  2. Numa tigela, misture com um fouet a farinha, o bicarbonato e o sal. Em outra, misture os ovos, o óleo e o açúcar, até que fique homogêneo. 
  3. Junte a farinha à mistura de ovos, misturando com a colher apenas até que não se vejam mais pontos de farinha. Acrescente a baunilha, a banana, o coco, as nozes e o buttermilk e misture apenas o bastante para que fique tudo bem combinado. 
  4. Distribua nas formas, alisando com a espátula de necessário, e leve ao forno por 60-65 minutos, invertendo as formas no meio do tempo. Asse até que um palito inserido no centro dos bolos saia limpo.
  5. Retire do forno e deixe esfriar sobre uma grade por 10 minutos antes de desenformá-los. Remova das formas e deixe que esfriem completamente. Bem embalados, os bolos ficam em temperatura ambiente por 1 semana, ou congelados, por 3 meses.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Grandes mudanças. De verdade.

Esse dia tinha de chegar, eventualmente. Afinal, uma mesa de desenho, um cachorro e um bebê não podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Logo, estamos nos mudando.

O que era para serem férias tornou-se uma maratona de contratação de serviços de mudança e reforma, compra de materiais e todos aqueles extras que surgem quando se muda de casa, e muito, muito empacotamento. Começamos pelos livros, que pareciam ser – e foi confirmado – a maior quantidade de itens do apartamento. Mesmo mandando 84 livros para doação, ainda conseguimos empacotar 10 caixas, sendo 4 só de culinária. Não vou nem dizer que há mais dois livros a caminho via Amazon nesse mesmo instante... vício maldito. Mas, como eu sempre digo, poderia ser pior: poderiam ser sapatos.
Enquanto tiro as coisas de seus lugares, avalio, separo em "fica" e "vai" e empacoto, ainda é preciso fazer um esforço para terminar com toda a comida da geladeira. Para dar fim às 9 claras congeladas, sobras dos sorvetes feitos no Natal, preparei um Angel Food Cake. Assá-lo pela segunda vez [agora confiando no palito limpo e sem a paranóia de querer dourá-lo além da conta] só fez confirmar meu veredito original: esse bolo é delicioso. E fácil, o danado! 

Os mirtilos congelados não são o suficiente para uma sobremesa, mas amanhã pontilharão de azul minhas panquecas. Hoje à noite, o caldo de legumes caseiro congelado se misturará ao restante do arroz arbóreo e virará um risotto de legumes de verão, com vagens, tomates e milho verde. O almoço agora foi o último pezinho de alface americana misturado a tomates, croûtons de ciabatta, mozzarella de búfala e manjericão. E um copão de chá vermelho gelado, que é uma delícia. A partir de hoje, tudo será preparado na única panela e frigideira não empacotadas e consumido nos únicos dois copos e duas tigelas deixadas de fora. E de volta ao empacotamento e ao trabalho, pois as "férias" terminaram. 

Nisso, resolvo empacotar meu armário. Apesar de só me mudar daqui a uma semana, não faz sentido para mim deixar isso para a última hora, se apenas 1/5 do meu guarda-roupa serve no meu momentâneo e crescente barrigão. Melhor que vá para a caixa de uma vez.

Todo mundo que se muda sabe como é: retirar suas coisas dos armários faz você ficar se perguntando por que diabos guardou aquela xícara lascada que ninguém usa, aquela sandália de tira estourada que você nunca mandou consertar, etc... Mais do que mandar embora itens quebrados e sem serventia, estou tentando aplicar alguns conselhos aprendidos no Zero Waste Home e no Apartment Therapy:
  • Não ter nada que você não ame. Se você gosta mais ou menos, mande embora.
  • Se tem valor sentimental, deixe à mostra; se for para guardar numa caixa no fundo de um armário, não faz sentido: jogue fora.
  • Só manter aquilo que você de fato usa regularmente.
Tem sido fácil e interessante exercitar o desapego. Estendemos um lençol na sala e estabelecemos aquele espaço como o "out box" [que acabou virando "UT box", depois que comecei a brincar de falar com um sotaque nórdico inventado].  Viraram "UT" livros de culinária ruins, literatura mequetrefe ou que não pretendemos ler de novo, repetidos, séries de quadrinhos incompletas, livros de referência ou técnicos ultrapassados e mesmo minhas gramáticas de Latim e Grego Antigo, compradas quando eu era nova e tinha tempo para aprender idiomas sozinha, mas que ficarão ainda mais abandonadas depois que meu filho nascer. É preciso ser realista: se eu não tenho tempo agora, terei menos ainda depois.

Também foram pro "UT" canecas sem uso, copos chatos de lavar, TODOS os potes e utensílios de plástico (que já foram ou serão substituídos por vidro e inox), cd's que não ouvimos mais, suas versões "pirata", toalhas velhas, e uma miríade de objetos sem nenhuma utilidade que vinham apenas ocupando o escasso espaço de nosso pequeno apartamento. Minha regra mental é não levar nada que precise ser guardado "lá atrás", no depósito: se não tiver espaço em seu respectivo cômodo é UT.

Quando o cão resolveu tirar um cochilo sobre o lençol, corremos para tirá-lo de lá. "O Gnocchi não é UT! Ele vai com a gente!" ;)

É catártico e um alívio pensar que só estamos levando para o apartamento novo aquilo que é de fato útil. Principalmente pensando que daqui a dois meses e meio teremos um novo membro da família acumulador de tranqueiras.

Mas voltando ao armário. Tenho plena consciência de que faz muitos parágrafos que parei de falar de comida, e eu juro que o próximo post será exclusivamente a respeito de feitos culinários. Mas eu precisava dividir meu espanto com alguém.

Separei as roupas que me servem e que serão usadas pelos próximos sete dias, e comecei a retirar o restante do armário. Conforme fui redobrando as peças, aproveitei para, mais uma vez, separar o que eu não queria mais. Olha, separa, dobra, empilha. Levei minhas poucas malhas para a caixa de papelão e voltei para o quarto. Observei as pilhas de blusas, saias, vestidos e calças. E me parabenizei mentalmente. Parecia pouco, considerando a gaveta de pijama e roupas de ginástica no armário e os poucos casacos de inverno ainda nos cabides. 

Então, só por curiosidade, resolvi contar. 

Eu desafio todo mundo que, como eu, acha que não tem um guarda-roupa imenso, a contar o número exato de peças que tem no armário. Você diria que nessa foto há 54 blusas, 15 vestidos, 8 saias e 7 calças?? O que mais me incomodou foi o número de blusas. No volume parece pouco, pois mulheres usam tecidos fininhos que não ocupam espaço. Mas elas estão lá. Todas elas. E fiquei me perguntando: por que diabos uso todo dia a mesma coisa se tenho 54 opções? Ou pra que demônios tenho 54 blusas se uso sempre as mesmas três ou quatro favoritas? Ou ainda pior: 90% do que está aí já não me serve há 3 meses e não tenho sentido falta de usar quase nada.   

 Choque total.

Se eu, que compro uma roupa nova por ano, tenho tão mais do que preciso, fiquei imaginando o pessoal que não consegue ver liquidação sem entrar. O que me deixou ressabiada foi me dar conta de que eu ando por aí de blusa furada e reclamando, enquanto tenho várias peças bonitinhas guardadas "para uma ocasião especial". :P
Tudo o que está na foto vai para o armário novo. Mas com uma missão: assim que eu voltar a ter cintura [o que eu espero que volte a acontecer, e acho que vai, porque engordei só 1kg por mês até o momento], vou me dar um prazo de 6 meses para usar essa roupaiada. O que não sair do cabide, virará UT.

Engraçado foi ver o guarda-roupa inteiro cabendo em uma única caixa, enquanto há mais três de mesmo tamanho para itens de cozinha, sendo uma APENAS de formas e assadeiras. Dá pra ver bem qual é minha prioridade na vida.

Enquanto eu me livro das tralhas e encaixoto cinco anos da minha vida, resta esperar ansiosa pela cozinha nova, bem maior, finalmente, com espaço para muitas futuras desventuras culinárias. :)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Calda de damascos

Não ando preparando muitos doces, por todos os motivos abaixo:

1. Tive uma overdose de cozinha (e doces) no fim do ano e ando com mais vontade de comer frutas in natura.
2. Ganhamos muitos chocolatinhos, biscoitos e coisinhas natalinas comestíveis, e não gosto de fazer doce novo enquanto não acabar com o que há em casa.

No entanto eu comprara damascos frescos ainda antes do ano novo com uma intenção específica: purê (ou calda) de damasco. Preparara isso no ano passado com uma bandejinha de frutas que estavam muito sem gosto, e o resultado fora sensacional. Esperei, então, o ano inteiro pelo surgimento dos damascos frescos no supermercado, salivando de antecipação.

O preparo não poderia ser mais simples: coloque numa panela média 1/2 xic. de açúcar, 1 1/2 xic. de água e algumas gotas de extrato de baunilha e leve à fervura, até que o açúcar tenha dissolvido. Ferva por um minutinho ou dois e junte cerca de 15 damascos cortados ao meio e sem caroço. Espere levantar fervura, abaixe o fogo, tampe e deixe cozinhar até que os damascos comecem a se desmanchar. Desligue o fogo e passe tudo por um liquidificador, processador ou um passa-verdura. Guarde em potes na geladeira e use em sorvetes, iogurte, bolos, pãezinhos... A receita é da Tessa Kiros, do livro Apples for Jam, que eu adoro.

Hoje de manhã já misturei fartas colheradas ao iogurte caseiro, até que todo o iogurte ficasse cor-de-laranja e perfumado. Poderia comer isso pelo resto da vida. Tão bom...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Um almoço colaborativo: pizzoccheri com folhas de rabanete

Espero que todos tenham tido um ótimo Natal e um excelente Reveillon. Eu tinha sim planos de escrever durante o fim do ano a respeito de todas as minhas desventuras culinárias, mas confesso que depois de passar tantos dias preparando comida, a única coisa que queria era sentar e comer, e não ficar fotografando ou falando a respeito. Passadas as festas, passei dois merecidos dias assistindo a uma temporada inteira de Mad Men, com meus delicados pés tamanho 40 para cima.

[Apenas para matar a curiosidade de qualquer transeunte, o almoço do dia 25 foi quase um repeteco de dois anos atrás: pasta de figo seco e avelã com pecorino, arroz selvagem com cramberries secas e castanhas, couve de bruxelas com parmesão, uma salada de aspargos, batatas e avelãs e uma torta de abóbora, tudo para acompanhar o peru, o tender e a farofa de minha mãe. De sobremesa, o velho e bom panettone, sorvete de nozes, sorvete de baunilha e calda quente de chocolate. Como alternativa, torta de limão com coco. No Reveillon, Saint Peter marinado em charmoula, com berinjelas e pimentões agridoces, rúcula e batatas assadas.]

De qualquer forma, confesso que ainda estou esperando a correria passar. No fim do ano, a correria do trabalho virou correria de compromissos familiares e com amigos que não via havia muito tempo e depois correria de cozinha. Quando essa maratona passou, me vi defronte a uma nova: a maratona do "faltam três meses para o bebê chegar e eu ainda não tenho nem onde colocar o moleque".

Vê-se logo que as experimentações culinárias andam em segundo plano.

Hoje, com pouco tempo e muita fome, resolvi colocar em uso dois deliciosos presentes: um maço de folhas de rabanete fresquinhas, colhidas da horta de meu primo, e um pacote de pizzoccheri que minha cunhada nos trouxe da Itália.

Enquanto os pizzoccheri cozinhavam, piquei grosseiramente as folhas de rabanete e fatiei um grande dente de alho. Refoguei o alho numa frigideira com um fio de azeite e um naco de manteiga. Quando começou a dourar, juntei as folhas, com uma generosa pitada de sal e pimenta-do-reino, e mexi com um garfo grande de bambu [acho os garfos mais práticos que as colheres para mover folhas numa frigideira sem jogá-las para fora da panela] até que estivessem murchas mas ainda de um verde bem vivo. Juntei um punhado de passas, mais um naco generoso de manteiga e acertei o tempero. Então bastou escorrer os pizzoccheri e juntá-los às folhas refogadas, servindo com um punhado de parmesão ralado grosso.

De barriga cheia e gordice satisfeita, posso voltar para minha correria.

Cozinhe isso também!

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