sábado, 23 de junho de 2007

Sopa de Funcho e Batatas


Se existe um modo muito simples de experimentar novos sabores e combinações é através de sopas. Esta é tão rápida de ser feita, que não lhe resta desculpa a não ser experimentá-la. E se funcho (mais conhecido como erva-doce) não é seu vegetal favorito, ainda assim peço para que a experimente: o funcho, quando cozido ou refogado, perde boa parte de seu sabor de anis, ficando muito mais suave, como uma nota adocicada permeando o creme de batatas e leite. E para os que continuam comprando iogurtes que prometem levá-lo ao banheiro, o funcho tem fibras suficientes (que dissolvem na sopa) para regular o intestino mais preguiçoso.

SOPA DE FUNCHO E BATATAS
Tempo de preparo: 30 minutos
Rendimento: 4 porções como principal ou 6 como entrada


Ingredientes:
  • 1 colher (sopa) cheia de manteiga sem sal
  • 350g de batatas
  • 300g de funcho (erva-doce) com os ramos — compre o mais arredondado, que tem mais sabor que o comprido
  • 1/2 cebola grande ou 1 pequena
  • 1 dente de alho grande ou 2 se quiser um sabor mais forte
  • 1/4 de colher (chá) sementes de erva-doce
  • 1 cubo de caldo de vegetais dissolvido em 500ml de água
  • 500ml de leite integral
  • sal e pimenta-do-reino branca a gosto

Preparo:
  1. Corte a batata em cubos pequenos e reserve. Pique bem a cebola, o alho e o funcho.
  2. Derreta a manteiga em uma panela de fundo grosso. Junte a cebola, alho e funcho picados e refogue em fogo mínimo, mexendo sempre com uma colher de pau, por 5-10 minutos, até que os vegetais fiquem muito macios e translúcidos. Não deixe que dourem ou queime, ou isso comprometerá o sabor delicado e a cor clara da sopa.
  3. Junte as batatas e as sementes de erva-doce e mexa bem por 1 minuto, para cobrir as batatas com os outros legumes.
  4. Acrescente a água com o cubo de caldo, mexa com a colher para que as batatas não grudem no fundo e aumente o fogo até comece a ferver. Então abaixe de novo o fogo para que a sopa fique em ebulição constante. Deixe por 15-20 minutos, mexendo de vez em quando, até que as batatas estejam cozidas.
  5. Desligue o fogo. Passe a sopa para o liqüidificador e bata até que vire um creme claro e homogêneo. MUITO CUIDADO ao bater líquidos quentes no liqüidificador: comece pulsando devagar e então deixe batendo, ou o líquido pode "explodir" com o vapor e queimá-lo seriamente. Como alternativa, deixe que a sopa esfrie um pouco antes de batê-la.
  6. Volte o creme para a panela e junte o leite, misturando bem. Ligue o fogo novamente apenas para reaquecer a sopa. Não deixe que ferva, ou o leite pode talhar. Experimente o tempero. Salgue e coloque pimenta a gosto.
  7. Sirva quente com as folhinhas de funcho como decoração ou guarde bem tampada na geladeira por até 2 dias e sirva gelada. Se quiser a sopa mais consistente, susbtitua metade do leite por creme de leite fresco.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Arroz de Festa

Não existe grão mais subestimado nesse país do que arroz. Ainda que faça parte de praticamente todas as refeições do brasileiro, em qualquer região, ele sofre pela não exploração de seu potencial. Nosso bom e velho arroz branco, muito simples mas muito bom, foi ainda rebaixado duas vezes: primeiro, quando deixaram de refogá-lo em bom óleo, alho e cebolas, por medo da gordura; segundo, quando taxaram-no de "carboidrato ruim".

Comecemos por aí: para quem acredita que engorda quando come arroz que foi refogado antes de ser cozido, digo que o que te engorda são provavelmente as sobremesas e o sedentarismo, e não a pobre meia colher de óleo vegetal que deu sabor ao seu prato. E para os defensores do arroz integral (muito bom, mas que considero muito difícil de absorver sabores), de fato, o arroz branco comum leva diversas substâncias duvidosas para deixá-lo como gostamos, mas por isso mesmo existe a versão orgânica da BlueVille, que é branqueado naturalmente, sem química. O grão é ligeiramente amarelado em relação ao branco comum, mas seu sabor e textura são iguais, senão melhores.

O interessante do arroz é que ele acabou virando um acompanhamento insosso à mesa: sempre branco, sempre simples, sempre afogado em feijão. Também é difícil vê-lo em pratos de cozinheiros de primeira viagem, que costumam fugir dele por não acertar seu ponto: arroz empapado ou queimado são inadmissíveis (e, claro, que já eu mesma produzi ambos). No entanto, como toda a ciência culinária, seguindo à risca algumas regrinhas, você produzirá sempre o melhor arroz como base para um sem número de variações sujeitas apenas à sua criatividade.

ARROZ PARA NUNCA MAIS ERRAR
  • O método utilizado no Brasil para cozinhar o arroz branco é chamado na cozinha clássica de Pilaf, que é o modo mais simples de preparação.
  • A proporção de líquido para grãos é sempre fixa, independente da quantidade preparada: 2 para 1. Ou seja, se você tem 1 xícara de arroz, precisa de duas de líquido. Líquido demais torna o arroz empapado, e de menos, não dá tempo suficiente para o arroz cozinhar perfeitamente, podendo queimá-lo.
  • O líquido não precisa ser água, pode ser caldo vegetal, de carne, frango, peixe, cogumelos, etc...
  • Normalmente refoga-se o arroz em óleo vegetal suave, como canola ou girassol, mas pode-se usar gorduras de sabor mais forte, como oliva, manteiga, etc.
  • Para o arroz ficar saboroso, é necessário que você utilize, além dos temperos básicos como sal e pimenta, vegetais aromáticos, como cebola, alho, aipo, etc, podendo acrescentar ervas ao cozimento.
  • O preparo é invariável:
    1. Aqueça o óleo em uma panela alta, em fogo médio-baixo, com tampa. De 1 a 3 colheres de gordura, sendo 3 suficientes para refogar 400g de arroz (10 porções). Enquanto isso, em outra panela, aqueça o líquido (água ou caldo). Aquecer o líquido antes de adicioná-lo ao arroz acelera o processo de cozimento.
    2. Os vegetais aromáticos escolhidos devem estar muito bem picados e razoavelmente uniformes, para que cozinhem por igual. Refogue-os no óleo quente, até que estejam muito moles, translúcidos e começando a amarelar, ou seu sabor não será tão doce e aromático. Quanto mais dourados estiverem seus vegetais, mais amarelo (e saboroso) ficará o arroz.
    3. Acrescente o arroz, mexendo vigorosamente com uma colher de pau, para recobri-lo totalmente com o sabor dos vegetais. Refogar o grão faz com que o amido comece a gelatinizar, encorajando os grãos a manterem-se separados após cozidos. Assim como quando se faz risotto, você ouvirá os grãos estalarem.
    4. Junte todo o líquido quente da outra panela. Mexa uma ou duas vezes antes que o líquido torne a ferver, para impedir que o arroz grude no fundo. Salgue (coloque menos sal caso esteja usando cubos de caldo, pois eles já são muito salgados). Se quiser, acrescente folhas de louro, tomilho, alecrim, ou outras ervas a sua escolha. Então abaixe o fogo para o mínimo e tampe bem a panela.
    5. O tempo de cozimento varia de acordo com sua panela, a intensidade da chama do seu fogão e a marca do seu arroz. O ideal é obedecer o tempo de cozimento descrito no pacote. Uma xícara do BlueVille orgânico costuma demorar aproximadamente 20 mintuos em uma panela de fundo muito grosso. Você saberá que ele está pronto pela regra que você aprendeu com sua mãe: o arroz parece seco e há furos fundos grandes em sua superfície.
    6. Desligue o fogo e mantenha tampado por 5-10 minutos. Isso permite que o arroz absorva qualquer líquido que possa ter restado no fundo da panela. Destampe, e, com um garfo, desmanche o arroz, separando os grãos. Ajuste o tempero.
    7. Para saber se seu pilaf de arroz deu certo, avalie as seguintes condições: o grão deve estar macio, mas com textura, sem desmanchar-se; os grãos devem separar-se facilmente, sem permanecerem em "bolinhos"; arroz que cozinhou além da conta tem gosto farinhento, de massa; arroz que não cozinhou o suficiente ou com pouco líquido são duros; não deve haver nenhum resquício de água no fundo da panela.
Dominando o arroz branco, você pode começar a variá-lo, acrescentando diferentes ervas, frescas ou secas junto com a água, ou acrescentando elementos no final, ao afofá-lo com o garfo, como tomates picados, abobrinha ou berinjela refogadas, azeitonas, salsinha picada, por exemplo. Outro modo de torná-lo mais interessante é refogar diferentes vegetais junto à cebola, como espinafre, cenouras, funcho, etc. E se houver muita sobra, coloque em uma travessa untada e acrescente batatas cozidas, frango ou atum, ervilhas, o que mais você tiver na geladeira, quebre um ovo dentro, mexa muito bem e cubra com queijo ralado, levando ao forno médio até que o queijo em cima esteja dourado. Nada é mais caseiro que isso.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Todo mundo erra

Nesse fim de semana, Allex pediu que eu preparasse duas dúzias de muffins para um café da manhã da empresa. Ok, sem problemas. Passei na casa de minha mãe para pegar emprestado um forma extra de muffins e, no domingo à noite, depois de um fim de semana bastante corrido, lá fui eu para a cozinha. Ele ficou ao meu lado, acompanhando o processo e tentando aprender alguma coisa e, quando a massa foi para as formas e estas ao forno, tudo parecia ir às mil maravilhas. Qual não foi a decepção ao retirar das formas 24 muffins achatados, pesados, farinhentos e assados desigualmente. Não preciso dizer que foram todos para o lixo.

Conto isso porque freqüentemente escuto a frase "tudo o que eu cozinho dá errado, então parei de tentar". Bom, pergunte à sua mãe, sua avó ou mesmo a qualquer bom chefe de cozinha: todo mundo erra. Muito. Mesmo gente com muita experiência ainda joga bolo no lixo. São tantas coisas que podem dar errado, desde a receita não testada, passando pelo forno diferente, até o fato de você simplesmente não estar no clima para cozinhar, que é uma grande bobagem concluir que o problema seja falta de talento.

É horrível desperdiçar tempo e comida, mas, fazer o quê?! Bola prá frente, tente de novo. Não jogue fora a receita. Compare sua base com outras semelhantes para verificar se a original contém erros de medidas, tempos, temperaturas ou ordem. Verifique se você de fato seguiu o passo-a-passo corretamente e se não infringiu nenhuma regrinha básica que possa ter arruinado seu almoço. Se a receita estiver errada, conserte-a ou jogue-a fora. Senão, dê uma outra chance. Num momento melhor, ela pode surpreendê-lo com bons resultados. Se o prato que você tentou fazer exigia alguma técnica nova para você, corra atrás e informações mais precisas, com fotografias, que possam guiá-lo mais detalhadamente numa próxima vez. Meu livro do Culinary Institute of America mostra até mesmo a cor a que devem chegar as cebolas em uma sopa de cebolas clássica francesa. É só comparar o que está na panela com a foto, e não há como errar nunca. Talvez, no entanto, você tenha sido apenas ambicioso demais. Comece com algo mais simples e vá complicando aos poucos.

O caso é, essa não será a última vez que prepararei muffins nem a última vez que eles irão para o lixo. Isso é normal, principalmente quando se começa a adaptar receitas para criar suas próprias. Ninguém acerta sempre.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Eu adoro feira!


Ufa! É sempre ótimo dizer que não tive tempo de escrever no blog, pois isso quer dizer que andei trabalhando um bocado, o que para um freelancer é o paraíso! Mas cá estou de volta. Desta vez tentando convencê-los a afastarem-se das estéreis geladeiras de seus supermercados e darem uma voltinha na feira semanal mais próxima de sua casa. Não, não adianta tentarem me enganar com a conversa da falta de tempo: existem feiras de domingo. A da Alameda Lorena, nos jardins, é minúscula, de um quarteirão só, mas excelente (ótimo pastel, por sinal).

Na última quarta, voltando da feira — praticamente arrastando meu sacolão vermelho até em casa — brinquei, dizendo que sou em uma feira livre como a maioria das mulheres é em uma liquidação de sapatos. Meus olhos não param quietos, tentando identificar nas barracas que parecem todas iguais, os melhores produtos da estação. Sou invasiva, quero encostar em tudo, apertar tudo, escolher cada tomate, cheirar as frutas, experimentar. Fico constantemente inebriada pela variedade de tons de verde no imenso paredão de hortaliças de minha banca favorita. Existe coisa mais linda que o rubi intenso de uma beterraba? E suas folhas, que mantém no talo o cor de vinho forte e esmaecem até um verde-bandeira lustroso. "É uma pena que eles vão para o lixo", você deve ter pensado. Ledo engano. Se você tem livros de culinária metidos a besta, deve já ter visto menção a uma folhagem deliciosa chamada "swiss chard". Tchanans: folhas de beterraba. Você as come como comeria espinafre, refogadas com alho e azeite, talos e tudo o mais, ou rapidamente cozidas (1 minuto apenas) em água fervente com sal, deixando os talos o dobro do tempo.

Outro dia fiquei em choque ao ouvir uma colega comentar que nunca vira folhagem de cenouras na vida a não ser em desenhos do Pernalonga. Bem, você pode comprar ramos maravilhosos de cenouras (com as folhas, que dão ótimos bolinhos) na feira. Assim como funcho (erva-doce), com lindos ramos de folhinhas verde-água minúsculas, com um delicioso perfume de anis. Estas folhinhas ficam ótimas em saladas, massas ou finalizando qualquer prato em que o funcho seja utilizado cozido, para evocar novamente o elemento fresco do bulbo.

Mas, e se eu não quiser comer esse monte de folha, você me pergunta, qual a vantagem? As folhagens de raízes e bulbos consomem a energia dos mesmos. Se não forem cortadas, as cenouras, por exemplo, murcharão. Mas sem os bulbos e raízes, são as folhas, por sua vez, que enfraquecem e morrem em pouco tempo. De modo que, ao comprar uma cenoura com a folhagem, você tem a garantia de estar comendo algo que foi colhido no dia anterior! Não poderia ser mais fresco do que isso! Isso também implica em uma durabilidade muito maior em sua geladeira do que a cenoura comprada no supermercado em bandejas de isopor. Sem contar toda a pataquada ecológica que eu adoro: usar as folhas das suas raízes e bulbos quer dizer maior aproveitamento do alimento e menor geração de lixo. Além do fato de que você estará levando dois vegetais pelo preço de um!!!

Vá à feira! As frutas fora da geladeira têm mais cheiro: você consegue diferenciar mais facilmente o que está bom do que não está. Pergunte ao feirante o que está na época, o que está bom, como preparar. Ele vai reponder com gosto. E se vier uma lagarta no meio da sua couve-flor, ou uma aranhinha no meio das suas uvas, comemore: o produto que você comprou tinha menos agrotóxicos (ou nenhum). Lembre-se de comprar vegetais menores: alho-poró mais fino, cenouras de no máximo 15 cm, funchos redondos e compactos; eles têm mais sabor do que seus irmãos super-crescidos. É importante também, assim que chegar em casa, separar as folhagens de suas respectivas raízes ou bulbos, e guardá-las em saquinhos. Use as folhas antes, pois o que fica embaixo da terra costuma durar mais.

Como queria adornar esse post com uma foto bonita de feira mas não tenho nenhuma local, vai aqui uma feira linda em Bolzano, na Itália. Aliás, culinária italiana é a melhor fonte de receitas de baixo orçamento para aproveitar cada pedacinho negligenciado de absolutamente qualquer vegetal.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Perfume Quente de Maçã - A Receita

Receita requisitada, receita publicada:

BOLO ITALIANO DE MAÇÃ (receita original de Anna del Conte)
rendimento: 1 bolo redondo de 20cm (cerca de 16 fatias)
tempo de preparo: 30min + 1h de forno


Ingredientes:
  • 1/2 xic. de uvas passas claras
  • 6 colh. (sopa) de água
  • 1/2 xic. + 2 colh. (sopa) azeite de oliva virgem
  • 3/4 xic. açúcar orgânico claro
  • 2 ovos extra-grandes em temperatura ambiente
  • 2 1/4 xic. farinha com fermento
  • 1 colh. (chá) canela em pó
  • 1 1/2 colh. (chá) bicarbonato de sódio
  • 1/2 colh. (chá) cremor tártaro
  • 1/2 colh. (chá) sal
  • 450g maçãs fuji descascadas e cortadas em cubos pequenos
  • raspas de casca de 1 limão

Preparo:
  1. Coloque as passas e a água em uma panela e leve à fervura. Apague o fogo e deixe que as passas absorvam a água. Pré-aqueã o forno a 180ºC. Unte com manteiga e farinha uma forma redonda de 20 cm de fundo removível.
  2. Bata numa batedeira o óleo e o açúcar até aumente um pouco o volume. Acrescente um ovo de cada vez, batendo bem até que pareça uma maionese leve.
  3. Acrescente os ingredientes secos um pouco por vez, usando uma espátula até que fique uniforme, tomando cuidado para não perder o volume da massa.
  4. Escorra as passas e esprema um pouco na mão para tirar o excesso de líquido e junte-as à massa. Junte as maçãs e raspas de limão e misture delicadamente. A massa ficará bastante firme.
  5. Com a ajuda de uma espátula, despeje a massa na forma e alise a superfíce (não bata o fundo da forma para nivelá-la, pois isso tira o ar da massa e torna o bolo pesado). Asse por aproximadamente 1 hora ou até que um palito saia limpo ao ser inserido em seu centro. Deixe o bolo descansar por 10 minutos antes de desenformá-lo.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Bao no Cesto de Bambu


Não é supresa para mais ninguém que eu volte de qualquer passeio, a qualquer lugar que seja, com alguma sacolinha contendo comida ou objetos a ela relacionados. Uma manhã de sábado no bairro da Liberdade, então, não poderia produzir efeito diverso. Minha compra da semana foi um pequeno cesto de bambu para cozinhar no vapor. Apesar de parecer estranho, o bambu — ao contrário de metais e outros materiais — inibe a condensação da água, o que faz com que o alimento cozinhe ou aqueça sem absorver rios de água gotejante, mantendo vegetais, por exemplo, tenros sem serem molengas. Ele também é muito útil para aqueles que baniram (ou pensam em banir) o microondas da cozinha, essa terrível "máquina de esquentar desigualmente", pois a bandejinha de bambu comporta seu prato inteiro com o jantar de ontem para ser aquecido no vapor hoje, trazendo de volta os sabores e a textura da comida como se ela tivesse sido preparada na hora.

Minha primeira experiência com o apetrecho foi incrivelmente bem sucedida. O nome destes pãezinhos chineses no vapor é Bao, e podem ou não ser recheados com vegetais e carne de porco. É claro que tratei de inventar minha versão vegetariana, com shiitake e escarola refogados em alho e azeite, temperados com manteiga, shoyu e cebolinhas. Por causa do método de cozimento, o pão nunca dourará como quando feito no forno, mas cria sim uma película muito fina segurando um interior excepcionalmente macio e úmido, que absorve como uma delicada esponja os sabores dos cogumelos temperados. Servi-os quentes, recém-saídos do cesto, acompanhados de shoyu e molho doce de pimenta, uma especialidade chinesa produzida a partir de boas pimentas "chilli" e ameixas. A receita da massa dos pães vem do livro Essentials of Asian Cuisine, de Corinne Trang, uma das mais respeitadas autoras sobre o assunto.

sábado, 12 de maio de 2007

"Blondies" de Nigella



O nome é estúpido, mas convenhamos: não é possível chamar esses bolinhos pálidos de "brownies". A receita é, mais uma vez, de Nigella Lawson. Cada vez mais seus livros têm se mostrado boas fontes de receitas, clássicas, revisitadas ou de culturas remotas, que de outra forma eu não conheceria. No entanto, cada vez mais me dou conta de que, ainda que seus pratos salgados sejam perfeitos para iniciantes na cozinha, pois não requerem nenhuma técnica ou experiência prévia, seus doces, apesar de simples, exigem alguém um pouco mais à vontade com ingredientes.

Apesar de seus bolos, tortas e doces serem de fácil produção (principalmente para quem tem uma batedeira ou processador), são seus textos que confundem o cozinheiro sem prática. "Bater os ovos até que fiquem cremosos e claros" pode parecer muito vago para quem não conhece o ponto certo e está acostumado com "bater por 10 minutos". Quão cremosos? Quão claros? Nestas horas é excelente conhecer aquelas regrinhas para produção de bolos que postei no blog há alguns meses atrás (em "técnicas"). Mesmo eu ainda produzia doces ruins por causa de instruções vagas demais.

Esta receita de brownies de chocolate branco é um ótimo exemplo de algo que poderia ter dado muito errado, ao bater demais ou de menos os ovos, ao acrescentar ingredientes ainda gelados, ou mesmo ao misturar a farinha muito violentamente e perder o volume do bolo. No forno, então, ao invés dos 35 minutos previstos na receita, foram precisos 50. Ainda assim recomendo seus livros. O "Forever Summer" é espetacular para quem quer refeições muito rápidas e frescas. E a receita de sorvete de morango é deliciosa e muito fácil. O "How to be a domestic goddess" é o livro a que mais recorro quando quero produzir bolos e biscoitos sem muita firula. Apenas um conselho: procure as versões INGLESAS ao invés das americanas. A versão inglesa, original, está toda no sistema métrico. A americana, cheia de "pounds", "ounces" e graus Farenheit pode ser confusa para adaptar e tem muitos erros de conversão de medidas. Também vale a pena checar o site www.nigella.com, onde há erratas dos livros, nas duas versões.

Agora, aos "so called brownies". Feitos de chocolate branco de qualidade, muita baunilha e macadâmias picadas, ele tem a densidade e a crosta leve dos brownies comuns, mas um sabor que evoca o caramelo e a baunilha como um doce de leite muito claro. Seu sabor é tão intenso quanto seus irmãos escuros, mas sua aparência pode causar alguma estranheza, já que, à primeira vista, parece um bolinho branco simples que deu errado. Mas quando você supera sua palidez, é recompensado por um aroma e sabor penetrantes de chocolate branco. Pequenos pedaços, no entanto, pois como sua versão original, ele pode ser um tanto enjoativo, ainda que não seja excessivamente doce.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O fim da rixa com o abacate



Quando criança, adorava abacate. Principalmente quando minha mãe preparava o creme, com muito açúcar; devorava cumbuquinhas inteiras. Não era à toa, afinal, que eu era redonda.

Quando cresci um pouco, o abacate virou um grande vilão: por ser muito calórico, ninguém queria mais saber do pobrezinho, e a simples menção da fruta a qualquer criatura de dieta era motivo de ataques violentos contra a coitada.

As coisas mudaram de figura quando descobriu-se que não só a gordura do abacate é daquelas que ajudam a controlar o colesterol ruim, como ele tem mais uma centena de outras substâncias e propriedades benéficas. Bota o abacate no menu de novo.

Minha rixa com o coitado, no entanto, era de outra natureza: desde que saí da casa dos meus pais tenho comprado abacates. Seja para guacamole, seja para saladas. Mas o danado nunca colaborava comigo e teimava em estragar antes mesmo de ficar maduro, principalmente no verão. De um dia para o outro, o abacate verde e duro apodrecia. Para fazer o guacamole do post dos nachos foram 3 frutas jogadas no lixo, o que muito me aborrece.

A rixa terminou com a descoberta no supermercado daquela variedade menorzinha, que ingleses e americanos chamam de "avocado". Com a metade do tamanho de um abacate comum (com caroço proporcional, é claro!) e casca enrugadinha, sua cor muda drasticamente do verde bandeira a um roxo enegrecido, que indica que ele está maravilhosamente no ponto. Não é preciso ficar apertando, cheirando e prevendo seu estado. E a melhor parte é que ele é uma "porção individual". Posso abrir um inteiro para minha salada de batatas e mâche (da foto) e deixar o outro intacto para quando o Allex chegar e quiser macular o verde intenso do abacate com colheradas de leite condensado.

sábado, 5 de maio de 2007

Perfume quente de maçã



Todo final de semana eu acordo com vontade de fazer um bolo. Acabo contendo meus impulsos porque sei que terminarei comendo tudo sozinha, já que o Allex não é lá muito boleiro. Mas desta vez não consegui evitar. Manhãs de sábado preguiçosas como essa, de céu azul e tempo frio, parecem despertar em mim uma vontade irresistível de ter pairando pela casa um perfume quente de bolo recém-tirado do forno, com frutas macias quase derretendo por dentro da massa fofa, doce na medida certa para comer acompanhado de uma xícara fumegante de café forte.

Dê-me qualquer espécie de bolo. Mas confesso uma preferência por esses bolos simples, camponeses, do tipo que se faz quando há maçãs demais para bocas de menos. Não é um doce para sobremesa, mas um bolo de "bocados": um bocadinho no café da manhã, um bocadinho à tarde com chá de camomila, uma ultima mordiscadela com leite quente antes de dormir, enquanto você assiste ao último episódio de seu seriado favorito. Há algo de essencialmente confortável nesta mescla de maçã, canela, raspas de limão e passas. Talvez porque essa receita italiana, assim como várias similares, puxe no inconsciente coletivo uma memória de um dia simples, uma avó inventando um modo novo de usar as maçãs que sobraram da colheita, numa época em que não se comprava bolos amantegados em padarias. Uma fatia ainda morna e uma xícara de café saída da Bialetti, fechar os olhos para sentir o sol de maio esquentar o rosto devagar, tentar ouvir algum passarinho no silêncio das 8 da manhã do fim de semana. O que mais eu poderia querer de uma manhã de sábado?

Acampamento chique







Andar 70 km em 3 dias? Dormir no meio do mato? Ficar sem banho? Bolhas nos pés? Picadas de micuins? Nada disso de fato me incomoda quando o que eu quero é me distanciar da cidade e ter a companhia de árvores e pássaros. No entanto, se existe um lado do acampamento selvagem que me irrita é a perspectiva de jantar miojo todas as noites.

Não há outro jeito: quando se faz uma travessia, não se pode levar comida pesada de carregar ou de preparo longo, já que o gás do fogareiro é pouco e existem grandes chances de você estar exausto demais no fim do dia para cozinhar pratos complicados. Quando programei a viagem com meu namorado, porém, deixei bem claro que, como encarregada da comida, as decisões seriam minhas, e eu não pretendia levar macarrão instantâneo ou aquelas horrendas sopas em pó, também figurinhas fáceis em acampamentos.

Os dois pratos escolhidos por mim (e que obtiveram grande êxito tanto no quesito leveza, quanto rapidez de preparo) para três noites foram couscous marroquino com grão-de-bico, ervilhas e especiarias, e tortellini de queijo da Barilla, com azeite extra-virgem e queijo ralado.

O primeiro foi escolhido por ser preparado em 5 minutos e usar apenas um copo de água. Levei na mochila um saquinho plástico com 200g de couscous seco (duas porções generosas), e outro pequenino com meio cubo de caldo de legumes, uma pitada de cominho, menta seca, pimenta-do-reino e sal. Para o tortellini, jantar dos outros dois dias, 2 pacotes de 250g cada (4 porções no total), dois pacotinhos de queijo ralado de 50g, e minha grande descoberta para culinária de acampamento: uma garrafinha de azeite extra-virgem de 125ml, que agora será lavada e guardada para ser reutilizada nas próximas viagens.

O tortellini foi a escolha perfeita: um pacote leva só 7 minutos a mais para cozinhar do que dois pacotes de miojo, cabe exatamente na panela de acampamento e acaba absorvendo toda a água usada; ou seja, não há desperdício. Sua massa de ovos e seu recheio de ricotta, Grana Padano e Parmigiano Reggiano, satisfazem não apenas a fome, mas também o paladar, e permitem que um andarilho cansado vá dormir no chão frio de barriguinha cheia e quentinha, sem acordar com fome no meio da noite (o que sempre acontece comigo ao jantar sopas Maggi e afins).

Agora quero começar a fazer experiências, e buscar receitas que possam ser simplificadas para acampamentos mais longos, em que se sente falta de um gosto mais fresco na boca.
Vale dizer que nossos lanches de queijo meia-cura, mel e frutas secas foram refrescados por ocasionais amoras selvagens encontradas em arbustos no meio do caminho...

Cozinhe isso também!

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